Se Contar, Ninguém Acredita No Que Aconteceu Nesse Natal

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Natal é uma das minhas datas favoritas no ano, porque é sempre aquela época em que você deixa tudo de lado e se permite aproveitar a vida, e cometer todos os excessos que não cometeria normalmente, ao seu bel prazer: tira folga do trabalho, ou férias coletivas – a menos que trabalhe no comércio –, dá uma trégua na dieta, tira o escorpião da carteira e finalmente cria coragem para comprar aquele sapato que você está namorando há meses, mas sabe que é caro demais para o seu orçamento… E se pá, ainda rola aquela viagenzinha com os amigos ou com a família para algum lugar bem bacana. Sem falar no panetone, no peru, na rabanada, e nas toneladas de chocolate sem culpa que você se permite comer, para só se arrepender lá pelo dia três de janeiro… Enfim, Natal é uma data em que quase tudo é permitido. E em que as melhores histórias acontecem. Inclusive as mais inacreditáveis…

_Pinheirinho que alegria! Trá lá lá lá lá, lá lá lá lá… Sinos tocam noite e dia…

_Nossa, quanta animação logo cedo! – comentou Cristiana, entrando na sala do apartamento, ao me ouvir cantando na cozinha enquanto virava as panquecas para o café-da-manhã de Natal. – Tem mais alguém aqui?

_Comigo, não. Com você…?

_O Pedrão só vem mais tarde. Mas, e aí? Qual é o motivo de tanta animação?

_Como assim? É Natal!

_É, mas para você amanhecer assim, cantando… A que horas o seu bofe vai chegar?

_Já te falei que não tem bofe nenhum!

Nesse momento, enquanto eu tirava as panquecas da frigideira, a campainha tocou. Cristiana foi atender, e depois de falar durante aproximadamente um minuto com alguém que começou perguntando por mim, ela fechou a porta, e trouxe uma cesta enrolada em celofane transparente, com um laço vermelho, até a bancada da cozinha. Dentro dele havia um ursinho de pelúcia branco.

_O Ninguém te mandou isso aqui – disse ela, com aquele sorriso “te peguei” no rosto.

Coloquei o prato de panquecas na mesa, e fui abrir meu presente, um tantinho constrangida. O ursinho tinha um cachecol vermelho e dourado no pescoço, com um pequeno enfeite natalino no centro, e um gorrinho vermelho. Ao redor dele, preenchendo o conteúdo da cesta, dezenas dos meus bombons favoritos.

_E aí? – insistiu Cristiana. – Ninguém tem nome?

_Amor, a fantasia é sua! – Eu não iria dar o braço a torcer. – Escolhe qualquer nome: Fulano de Tal, Sicrano de Etecetera, Beltrano de Assim Por Diante…

_Ahã! – Ela ergueu meu ursinho da cesta e começou a movê-lo diante do meu rosto, fazendo uma vozinha tola, como se ele estivesse falando: – E quem me mandou para você foi o Fulano de Tal, o Sicrano de Etecetera, ou o Beltrano de Assim Por Diante?

_Os três!

_Ok! Fica aí escondendo o jogo! Mas eu aposto que até o fim da noite eu consigo descobrir quem é esse teu bofe.

_Ah, é? E como você vai descobrir, hein, Cristiana Holmes?

_Vocês estão saindo há… O quê? Duas semanas?

Dei de ombros.

_E ele te mandou um ursinho e um monte de bombons logo cedo na véspera de Natal… – prosseguiu Cristiana. – De duas uma: ou ele está muito apaixonado, ou já te conhece há séculos. Ou as duas coisas! Eu sou capaz de apostar que ele vai aparecer por aqui hoje.

_Bom, se você vai apostar, me faça a gentileza de apostar dinheiro; e aposte alto, porque você vai perder!

_Veremos!

Ela colocou o ursinho de volta na cesta.

_Vamos almoçar na sua mãe hoje? – indagou Cristiana.

_Vamos.

_Não esquece que a gente tem que voltar cedo.

Esse ano, a festa de Natal da galera seria no nosso apartamento. Viriam umas oito ou nove pessoas, cada um traria um prato, e nós trocaríamos os presentes do amigo secreto. E como ninguém se arriscaria a carregar um peru assado pela cidade em plena véspera de Natal, ficou decidido que nós assaríamos o bicho – que foi comprado pelo Leandro, nosso produtor teatral – aqui em casa, mesmo.

_De preferência, antes que a tia Rosália resolva aparecer – assenti.

Tia Rosália é tia da minha mãe, e a única parente daquele lado da família de quem eu não gosto. Os motivos são muitos; para simplificar: ela gosta de torturar criancinhas. Esse tipo de trauma não se apaga com o tempo…

_Aproveita o almoço natalino para contar para a sua família sobre o seu novo namorado – provocou-me Cristiana, passando geleia nas panquecas.

_Claro… Aproveito e conto também que o seu pai está na cadeia – retruquei. Mas é claro que eu estava brincando.

_Ele é carcereiro! – replicou Cristiana.

_Eu não vou entrar em detalhes.

E Cristiana me atirou, de brincadeira, o papel amassado de um bombom.

_Só espero que o seu namorado misterioso não seja o Casanova.

_Não, mesmo!

Casanova é o apelido do Leandro, e é autoexplicativo: é mais fácil acompanhar a vida amorosa do Fábio Jr. do que a dele.

Saímos de casa pouco depois do café-da-manhã. Minha mãe estava no telefone quando chegamos à casa dela. Abriu a porta com o aparelho grudado na orelha, dando risada, e gesticulou para que entrássemos, jogando beijos silenciosos para nós. Minha irmã Roberta estava na cozinha, retirando o assado do forno, e rindo de alguma coisa também.

_O que é tão engraçado? – perguntei à minha irmã.

_Se eu entendi bem, a Claudete levou marmita para almoçar na casa da tia Vilma – disse Roberta.

Claudete é a esposa do meu primo Ari. Depois de uma série de roubadas, e de namorar espécimes de toda a fauna brasileira, ele acabou se casando com a ex-mulher de dois dos seus amigos (sem brincadeira!), já mãe de três filhos, e atualmente à espera do quarto.

_Está certa ela – comentei. – Se a tia Vilma tiver feito costela, o que será que a Claudete vai ter primeiro: um infarto ou o bebê?

_Por quê? – perguntou Cristiana. – O que tem na costela da sua tia?

_Três toneladas de gordura! – respondeu Roberta.

_Já te falei disso, lembra não? A costela gordurosa da tia Vilma? Carinhosamente conhecida como moqueca de quenga.

Minha mãe sibilou pedindo para baixarmos a voz, ainda com o telefone grudado na orelha, provavelmente com medo de que a minha tia ouvisse o apelido carinhoso que demos a um dos pratos mais tradicionais de sua culinária. Não lembro exatamente quem foi que deu esse apelido à gororoba – se fui eu, meu irmão Raul, a Roberta ou o próprio Ari –, mas o apelido pegou, e hoje em dia, todo mundo na família o conhece. Bem, todos, menos a tia Vilma…

_Ah, lembrei – disse Cristiana, recuperando-se de uma gargalhada. – Vem cá, a Claudete ainda não ganhou neném? Ela está de quantos meses? Dezoito?

_Pelo que ela falou, deve nascer até o final da semana que vem – disse Roberta.

_Mas já sabem o que é?

_A gente acha que é humano – disse Roberta. – Pelo menos, estamos torcendo por isso…

_Em todo caso, já compramos a jaula! – disse Raul, vindo do corredor, com o cabelo molhado, exalando perfume e terminando de abotoar a camisa, a tempo de acompanhar a conversa.

_Coitada, gente! Ela nem é tão feia – defendeu Cristiana, enquanto Raul lhe dava um beijo na bochecha, vindo me abraçar em seguida.

_Considerando as crias daquela mulher, é melhor prevenir – disse Raul. – Não se esqueça de que a última coisa que ela pariu foi o moleque feio. Já viu a fuça daquela criatura? Vai que aquilo morde…

_Ué… É uruguaio? – indagou Cristiana.

_Tá ficando velha essa piada! – repliquei, dando risada.

Moleque feio é o apelido carinhoso que o Raul deu ao Jason, filho mais novo da Claudete. Na verdade, ele nem é tão feio assim… Ele só tem as orelhas do Dumbo, nariz de batata e quatro quilos de beiço… Tirando isso, até que ele é bem ajeitadinho.

_É só para não perder o costume – disse Cristiana, referindo-se à piada sobre o garoto ser uruguaio.

_Eu ouvi vocês falando sobre a moqueca de quenga da tia Vilma… – disse Raul. – Tomara que, além da marmita, a Claudete tenha levado também a louça, porque já sabe como é a casa da velha…

_Como é a casa da sua tia? – perguntou Cristiana, fingindo inocência.

_É o tipo de casa que não dá para comer.

_De fato, comer blocos de concreto não parece muito saboroso – adicionou Roberta.

_Onde não dá para comer – corrigiu Raul, dando risada e bagunçando o cabelo da nossa irmã.

_Na casa da tia Vilma se adoça café com arroz azedo – comentei.

_Que horror! – exclamou Cristiana.

Apesar de sermos amigas de infância, Cristiana só conhece uma pequena parte da minha família. Tia Vilma pertence à parte que não dá muita coragem de assumir como parente.

Tudo bem que toda família tem seus espécimes malucos, mas a minha abusa! Se um dia o Ibama decidir fiscalizar, eu não quero nem imaginar o tamanho da multa que vai dar, porque o que não falta na minha família é bicho ilegal: tem preguiça, tem anta, porco, veado, piranha… Tem de um tudo!

_Eles deixam o coador de pano dentro da lixeira da pia, e não lavam antes de usar – explicou Raul. – Vão passando um café por cima do outro. Aí você olha no fundo do copo acha grão de arroz azedo, casca de cebola, semente de laranja… É uma nojeira!

_Eu, hein… – murmurou Cristiana, livrando-se de uma ânsia de nojo.

E foi quando minha mãe finalmente desligou o telefone e anunciou que a tia Vilma nos desejara um feliz natal.

_Quando eu estiver falando com alguém no telefone, e vocês quiserem falar mal dessa pessoa, façam o favor de falar baixo! – ralhou, chegando-se à cozinha para mexer as panelas, cujo fogo Roberta acabara de desligar.

_Relaxa, mãe! – disse Raul. – Garanto que ela não ouviu.

_Sorte de vocês que a Vilma é meio surda…

_Meio surda era a Bizantina da Praça é Nossa! – replicou Raul. – A tia Vilma é um caso de polícia!

_Seja lá como for! Não é por isso que a gente pode malhar a velha e ficar chamando a coitada de porca enquanto ela está do outro lado da linha.

_Só para ficar registrado: ninguém aqui disse a palavra porca – esclareci. – A gente só comentou que ela faz café temperado com tudo o que estiver no fundo da lixeira.

_Muito engraçadinha, dona Emanuelly…

_E o papai? – perguntei. – Achei que ele vinha almoçar com a gente…

_Seu pai ligou agora a pouco, também – disse minha mãe. – Roubaram o carro da funerária, e ele foi pra delegacia registrar ocorrência.

Já contei que meu pai é agente funerário? Não contei, não? Bem, agora contei!

_Mas ele está bem? – perguntei, preocupada.

_Tirando o susto e o prejuízo, está.

_Fazer B.O. na véspera de Natal…? Será que ele consegue sair da delegacia antes do Réveillon? – comentou Cristiana.

_Vai saber…

_Eu duvido que ele saia cedo de lá – disse Raul. – Melhor não esperar para almoçar.

_Foi o que ele disse ao telefone – concordou minha mãe. – Aliás, o almoço já está pronto. Só vamos esperar o Pablo chegar com os refrigerantes.

_Quer dizer que o namoro está ficando sério, então? – perguntei à Roberta.

_Você tinha dúvida? – indagou minha irmã.

_Pablo… Pablo… Pablo…? – ficou repetindo Cristiana, tentando se lembrar.

_A Roberta está namorando um argentino – disse minha mãe.

_Ninguém é perfeito – brincou Raul.

_Você conhece, Cristiana! – disse Roberta. – Aquele amigo argentino da Manu que ficou hospedado com vocês na Copa do Mundo.

_Pablo…? Não lembro, não – disse Cristiana. – Eu lembro de um argentino com duas asas tatuadas no pescoço…

_É ele! – afirmei.

_Ih, gente! Então por que eu passei a Copa inteira chamando esse cara de Diego?

_Porque você é maluca! – disse Roberta, rindo.

_E eu pensando que ele era namorado do Mário… – comentou Cristiana, sem a menor cerimônia.

_Que Mário? – perguntou Roberta, com uma inocência que chegou a beirar a ingenuidade. Percebeu em seguida o erro cometido, porque começou a corar, enquanto todos tentávamos conter as risadinhas.

_Vou deixar essa passar, só porque hoje é Natal… – disse Cristiana, mal segurando a risada. – O Mário é aquele italiano que ficou amigão dele na Copa; os dois não se desgrudavam… Depois ainda tirou sarro, porque o Diego ficou a Copa inteira relembrando histórias do Maradona e falando do Messi, que os melhores jogadores do mundo são argentinos, e não sei mais o quê… E depois o italiano, de pirraça, se gabou de ser xará do autor do gol do título da Alemanha.

_E não vamos nos esquecer que o título da Alemanha foi praga da Emanuelly – lembrou Raul.

_Como é que eu ia saber que o anjo do ex-Papa ia falar amém? – defendi-me.

Ok, eu confesso: fiquei encantada com a seleção alemã desde o primeiro jogo; mas quando eu disse que eles ganhariam a Copa, eu falei da boca pra fora. Depois de fazer o Cristiano Ronaldo – que, convenhamos, não é um perna de pau, mas também não é tudo isso – sair chupando dedo, sem conseguir anotar um golzinho sequer, no jogo de estreia, deu para ver que a Alemanha estava atazanada. Tudo o que eu disse foi que, se continuasse nesse ritmo, e chegassem à final, a Alemanha ganharia a Copa sem dúvida alguma. E ainda acrescentei: “só espero que não joguem contra o Brasil na final”. Oh boca…

_Ah, tá… O Lucarelli – disse Roberta, recordando-se do amigo italiano do namorado. – Tinha esquecido o primeiro nome dele. Eles ainda se falam. Da última vez que eu soube, ele estava para casar, lá na Itália. Só não lembro o nome da noiva. E Diego é o nome do irmão do Pablo, a propósito. Não sei por que você cismou que era o nome dele…

_Mas ele tinha a maior cara de Diego… – defendeu-se Cristiana.

_E o irmão dele também. Os dois são parecidos.

_E por falar em irmão e em namorado, sua irmã está escondendo o jogo, mas tem bofe novo na área – dedurou Cristiana.

_Fala logo o nome do fulano que eu quero bater um papinho com ele – disse Raul, bancando o irmão ciumento. Só bancando, mesmo.

Dei um olhar de desdém para Cristiana. Se ela pensava que podia arrancar uma confissão de mim, só porque estávamos rodeadas pela minha família, ela podia tirar o cavalo da chuva.

_Conta aí, Manu – incentivou Roberta. – Quem é o cara?

_A fofoca que você buscou encontra-se desligada ou fora da área de cobertura. Tu, tu, tu, tu, tu, tu… – eu disse, imitando a voz da gravação das operadoras de telefonia.

_Fala pra mim que não é o Casanova…? – supôs Raul.

_Mas que mania vocês têm com o Casanova! – reclamei. – Gente, eu sou doida, mas nem tanto…

_Aquele garoto que escreve a coluna de esportes do jornal…? – supôs minha mãe. – Ele mora no prédio de vocês. Como é mesmo o nome dele…?

_Fábio – respondi. – Aliás, se tem uma coisa que eu admiro no Fábio é o namorado dele. Pensa num homem que não pediu licença para ser bonito!

_Ah, eu vi os dois outro dia na piscina – disse Cristiana. – Ele parece modelo, né?!

_Não me diga que você voltou a sair com o Podolski? – perguntou Roberta.

_Espera aí! O bonitão do Bloco C? Apartamento 110? – verificou Cristiana. – Quando foi que você…?

_Roberta e sua boca grande! – ralhei.

_Por acaso você conhece outro clone do Podolski? – respondeu Roberta para Cristiana. – Circulando em São Paulo?

_Ah, cachorra! E não me contou nada…

_Faz mais barato, Cristiana… E vamos parar de brincar de adivinhar que isso aqui não é Programa do Silvio Santos.

_Ok, se não é o Podolski, eu aposto que é o vendedor gato daquela loja de móveis chique… – insistiu Roberta.

_Um moreno? De olhos esverdeados? – verificou Cristiana.

Fiz que não com a cabeça. Mas dei um sorriso ao lembrar de quem estavam falando. Roberta assentiu.

_Esse filé mignon é Friboi! – disse Cristiana, com o mesmo sorriso.

E foi bem nesse momento que a porta do apartamento da minha mãe se abriu. O primeiro a entrar foi o Pablo, o namorado argentino da Roberta, carregando duas sacolas com as garrafas de refrigerante. Em seguida, entraram o papai e a minha boadrasta Malu.

Faz mais de quinze anos que meus pais se separaram, e Malu é a terceira esposa que meu pai arrumou depois do divórcio – e esperamos que seja a última, porque com o mau gosto que ele tem, dificilmente terá outro acerto. Minha mãe, por outro lado, não se casou com mais ninguém, mas corre um boato de que ela está namorando.

_Vamos ter churrasco hoje? – perguntou meu pai, ao pegar o bonde andando.

_Não que eu saiba – respondeu minha mãe, agradecendo ao novo genro pelos refris, que ele teve o bom senso de já trazer gelados.

_Eu ouvi vocês falando em filé Friboi – comentou meu pai.

_Ah, é, está de oferta no açougue – mentiu Roberta, arrancando uma risadinha do Raul, que ela respondeu com um olhar reprovador. E em seguida mudou de assunto. – A gente estava comentando aqui que vocês iriam demorar na delegacia. O que aconteceu?

_Se eu contar, vocês não acreditam… – comentou papai, colocando as sacolas de presentes no sofá.

Esse é meu lema, pai!

_Vai na fé, que a gente acompanha – incentivei.

_Bom, eu estava levando o corpo do seu Aristides pro cemitério – ele começou –, parei num sinal vermelho, de repente me apareceu o Papai Noel com dois duendes e uma rena trabalhada no anabolizante, me apontou um trinta e oito e roubaram o rabecão.

_Quê isso, gente? A crise já chegou ao Polo Norte?! – brincou minha mãe.

_E pelo visto a coisa tá tão feia que Papai Noel e os duendes estão virando trombadinhas – completou Raul.

_Vai ver ele teve que mandar o trenó pra oficina e precisava de outro transporte para entregar os presentes essa noite… – sugeriu Cristiana.

_Mas um carro funerário?! – indagou Raul. – Com tanto carro importado por aí…

_Esse Papai Noel não tem muita noção de marketing – comentei.

_Ao contrário, é um tipo de Robin Hood bizarro: que rouba o carro dos mortos para levar presentes pros vivos – disse Roberta.

_É, mas olha o prejuízo que ele me deu – queixou-se meu pai. – E o pior é que além do rabecão, eles levaram o caixão com o corpo do defunto, e mais a urna com as cinzas do Seu Vigário que eu fiquei de entregar lá na casa da Dona Cleide. E agora? Que satisfação que eu vou dar pra Dona Cleide e pra viúva do Seu Aristides?

_Bom, pai, a dona Cleide é fácil – disse Raul. – É só sair recolhendo as cinzas de tudo quanto é cinzeiro pela cidade, bota dentro de outra urna, e faz de conta que nada aconteceu. Agora o presunto do Seu Aristides… Uma hora ou outra o Papai Noel vai ter que desovar em alguma vala. É só esperar a polícia encontrar e devolver pra família. Fala pra viúva ter um pouquinho de paciência…

_Quero morrer tua amiga – disse Roberta, espantada com a ideia estapafúrdia do Raul. – Ou melhor, não quero morrer na tua mão!

_Espera aí… – interrompeu Cristiana. – Tinha um padre morto dentro do rabecão, também?

_Não. Vigário é o sobrenome do sujeito.

_A Dona Cleide, então, é a mulher do Vigário? – conferiu Cristiana. – Essa deve ter sido a primeira a romper o silêncio da brincadeira. Vai vendo: essa praga pega!

_Não estou muito certo, mas acho que ela era irmã dele… – disse meu pai, fazendo esforço para se lembrar. – Acho até que não faz muito tempo que eu fiz o enterro da mulher do Seu Vigário…

_Vem cá, seu carro não tem rastreador via satélite? – perguntou minha mãe.

_Tem. Liguei para a empresa na hora, e eles já acionaram o bloqueador. Mas hoje é véspera de Natal. Vai saber quanto tempo vão demorar para me mandar a localização.

_Provavelmente menos do que a polícia – considerou Raul. – Se em dias normais, a polícia já é devagar, avalia a velocidade de hoje…

_Bom, o jeito é esperar. E torcer para acharem rápido, senão o Seu Aristides não vai ter nem meia hora de velório.

_A menos que alguém pague mais uma diária de aluguel da sala – disse Raul.

_Duvido! Pelo que eu percebi a viúva dele é daquelas pessoas que acendem a luz com um murro para não abrir a mão. Até na hora de pagar o atestado de óbito a mulher tentou pechinchar. Mais barato que o enterro do Seu Aristides, só enterro de indigente em saco plástico! Por que você está me olhando com essa cara, Emanuelly?

Eu estava franzindo a testa, porque, não acho que eu tenha ficado tanto tempo sem ver o meu pai, mas de repente notei que ele estava com umas entradas bem profundas na cabeça, e a saída dos fundos também já estava bem encaminhada.

_Você ficou tão nervoso por ter sido assaltado pelo Papai Noel que andou arrancando os cabelos? – perguntei.

_Até tu, minha filha? – Meu pai fez uma careta, baixando os lábios num canto.

_Até que demorou – disse minha mãe. – Seu pai já estava começando a ficar calvo quando a gente ainda era casado!

_Não tenho culpa! – disse meu pai. – Os grandes sábios da história não tinham cabelo. Eu estou ficando sábio.

_Não, você está ficando careca, mesmo, pai! – repliquei.

_É… Mas eu já tive um cabelão, que nem o desse moço aí. – E apontou para Pablo com a cabeça.

_Esse moço aí é seu novo genro, paizão – dedurou Raul.

_Estou sabendo – murmurou meu pai, sem expressão.

_Quando foi que o senhor imaginou que iria ter um genro argentino? – provocou Raul.

_Antes um argentino que um corintiano! – disse meu pai, abrindo uma garrafinha de cerveja, e tampando os ouvidos para se proteger das vaias dos cinco corintianos presentes na casa: Malu, Raul, Roberta, Cristiana e eu.

Meu pai sempre foi o único palmeirense em casa, e sempre gostou de nos provocar. Dizia que não sabia o que tinha feito de errado para ter três filhos corintianos – quatro, na verdade, porque não vamos nos esquecer da Babi, o contrabando recém-descoberto, de treze anos de idade, que, como nós, também veio ao mundo com um coração sofredor. Só a mamãe nunca gostou de time nenhum.

_Falando nisso, Diego – disse Cristiana, dirigindo-se ao argentino –, seu nome não é Diego?

_Non – respondeu ele. – É Pablo?

_E por que nunca me corrigiu quando eu te chamava de Diego?

_Porque me disseram para non te contrariar – ele disse, com seu forte sotaque argentino, apontando para Roberta, que já se protegia detrás de um prato erguido como um escudo, embarcando numa gargalhada.

_Vai ter volta, tá, amiga! – prometeu Cristiana, rindo também.

_A Adalgisa te ligou, filha? – perguntou papai, voltando-se para mim.

Adalgisa é minha mãe biológica, com quem meu pai teve um caso no início de seu casamento com a Vera, mãe do Raul e da Roberta, e que quase causou sua separação. Aliás, o que manteve minha mãe casada com o meu pai naquela época foi justamente a descoberta de que estava grávida da minha irmã, que acabou nascendo quinze dias depois de mim.

E o fato de eu me referir à Vera como minha mãe, e não à Adalgisa, é muito simples: Adalgisa nunca me quis. Depois que eu nasci, ela fez um acordo com o meu pai: ele me criou, e ela seguiu com sua carreira de cantora de cabaré. Então, eu meio que não considero muito o nosso parentesco. Respeito-a; exceto quando ela se dá a liberdade de trocar o meu nome, me chamando pelo que ela supostamente tinha escolhido para mim, antes de decidir que não queria me criar.

_Não – respondi, tentando não fazer uma careta incomodada. – Como sempre, ela só vai lembrar que é Natal lá pelo dia vinte e oito… De janeiro!

_Não esquenta, Regina. Ela é meio doida, mas te ama – disse meu pai. – Do jeito dela…

_O jeito dela é muito esquisito. E não me venha com essa de Regina… – Eis aí, o nome que ela supostamente tinha escolhido para mim.

_Convenhamos: Regina é muito melhor do que Antonella – comentou Raul, dando uma olhada de esguelha para a mãe.

_Eu achava o nome lindo, na época – disse Vera, na defensiva.

Quando decidiu perdoar meu pai e ajudá-lo a me criar – depois de Adalgisa ter tirado o corpo fora –, meu pai, em retribuição, permitiu que Vera escolhesse meu nome, sem nenhuma interferência, e ela, talvez ainda magoada por causa da traição, talvez com um – creio que há muito superado – espírito vingativo alojado no coração, decidiu chamar-me de Antonella. Pessoalmente, não acho o nome tão ruim… Se fôssemos argentinos! Mas aqui o nome não é tão comum assim, e as crianças na escola – aqueles pequenos demônios indomáveis e cheios de maldade no coração, camuflada pelas carinhas inocentes – tinham a mania de pegar só a primeira parte do meu nome para me zoar. Os apelidos variavam de Antonilda a Antonieta, Antolina, Antológica – essa foi uma criança um pouco mais desenvolvida, e que, por influência do capeta abriu o dicionário na página errada –, e, o favorito da maioria, “a anta é ela”. Como eu odeio esse nome!

Aliás, fica aqui o apelo: vamos logo tratar o bullying como o que de fato é, uma agressão hedionda, e puni-lo criminalmente, não importando a idade do infrator!

Mas, voltando ao assunto, Vera já se desculpou há séculos por esse lapso de humanidade, e até se propôs a pagar a mudança definitiva nos meus documentos, mas acho que a pior fase da minha vida já passou. Agora, só revelo esse nome horrível para quem tem alguma importância na minha vida. Para todos os efeitos, sou Emanuelly: é meu nome artístico, pseudônimo, apelido, alterego… Enfim, chamem como quiser.

Quanto à Regina, nada contra o nome, propriamente; apenas me incomoda a hipocrisia de dona Adalgisa, ao tentar me convencer de que em algum momento ela se preocupou em escolher um nome para mim. Porque, se a pessoa tem a intenção de abandonar o filho, não se dá o trabalho de escolher um nome para ele, certo?

_Bem, mudando de galinha para porca, vocês vão para a casa da Vilma hoje à noite? – perguntou meu pai, dando uma risadinha.

Ao que Vera lhe deu um olhar zangado. A palavra porca sempre aparecia na conversa quando alguém mencionava a tia Vilma, de uma forma ou de outra.

_Com todo o respeito… – acrescentou ele, defendendo-se.

_Sei… Com respeito… – desdenhou Vera. – Acho que só vamos a Roberta, o Pablo e eu, porque o Raul vai pra casa da Fabiana, e a Manu vai passar o natal com os amigos.

_Quem é Fabiana? – perguntou meu pai. – O nome da sua namorada não era Renata?

_Acho que era Danielle, amor – comentou Malu.

_Era Letícia – corrigiu Raul. – Mas com ela não era nada sério.

_E com essa Fabiana é sério? – inquiriu meu pai, erguendo uma sobrancelha para Raul.

_O tempo dirá.

Resumo: não!

Desisti de acompanhar a vida amorosa do Raul há uns doze anos. Não guardo mais o nome de nenhuma “namorada” que ele me apresente, a não ser que, por alguma razão, nos tornemos amigas. Para facilitar a vida, chamo todas elas de flor ou cunhadinha. Assim eu não corro o risco de cometer alguma gafe; como chamar a Renata de Letícia, ou a Danielle de Mariana – o último nome que me lembrava de uma “namorada” do Raul.

_O almoço está servido – anunciou Vera, ao terminar de pôr a mesa.

Não que nós fôssemos nos sentar à mesa para comer. Afinal, éramos oito pessoas para nos espremer numa mesa para quatro, com nossos pratos e copos disputando espaço com as travessas que minha mãe faz questão de utilizar no natal. Assim, nos servimos, e nos espalhamos pela sala de estar. Raul ligou a televisão num desses filmes natalinos que passam todo ano na TV a cabo, só para fazer fundo às conversas, e começamos a degustar o almoço.

_Vai ter festa no teatro de novo, Manu? – perguntou Malu, colocando o copo de refrigerante ao lado da garrafinha de cerveja do meu pai na mesinha de centro, recostando-se com o prato na mão numa cadeira trazida da cozinha.

_Não. Esse ano diminuiu o número dos rejeitados, então, vamos fazer uma festinha no nosso apartamento, mesmo.

_Obrigado pela preferência – riu-se Raul, dando-me uma alfinetada por ter usado a palavra “rejeitados”.

_Você entendeu o que eu quis dizer – retruquei.

Cristiana e eu fazemos parte de um grupo de teatro semi-independente – porque não gostamos de utilizar a palavra “amador” – que se apresenta três vezes por semana num velho casarão em Santo André, que era uma herança de família do Otávio Serqueira, empresário teatral que já era conhecido do Leandro Bittencourt – vulgo Casanova, de quem já falei anteriormente. A casa estava praticamente abandonada, e nenhum dos herdeiros tinha intenção de vendê-la ou usá-la. Então, quando Leandro apresentou os projetos do grupo de teatro que tinha fundado com outros amigos, e que ainda engatinhava na época, apresentando-se em praças e escolas, ele gentilmente concordou em nos ceder o espaço para apresentar nossas peças, em troca de uma porcentagem na venda dos ingressos.

A princípio, apresentávamos as peças num pequeno palco de madeira construído no salão de bailes estilo imperial que a casa possuía, e o público nos assistia em cadeiras de plástico usadas que conseguimos como doação de diversas partes. Mais tarde, quando percebeu que as peças estavam indo bem, o Otávio decidiu investir numa pequena reforma do casarão, que consistiu basicamente em transformar aquele salão num pequeno auditório para cento e cinquenta espectadores no total, com direito a uma galeria, e quatro camarotes laterais, e um palco de concreto com alçapão que permitiu um upgrade nos nossos espetáculos.

O teatro Máscaras acabou se tornando uma espécie de cartão-postal da cidade, e contou até com a presença do prefeito para a inauguração oficial após a reforma, com notas e reportagens em diversos jornais. Uma história admirável de recuperação de um patrimônio abandonado e de investimento cultural.

Ao contrário, porém, do prestígio que nosso pequeno teatro ganhou, os atores do grupo Máscaras continuam sendo marginalizados por suas famílias, que continuam nos considerando boêmios e sonhadores, e que não levam a menor fé em nossa arte, muito menos em nossas carreiras.

A maioria, inclusive, mora muito distante da família. Naturalmente não é o meu caso. Minha família mora perto – mamãe na Vila Ema, papai em São Caetano, eu e Cristiana na Vila Carrão –; e, se não levam fé que um dia eu posso acabar indo parar em Hollywood e ganhando um Oscar, também não menosprezam de todo a minha arte. Minha mãe, por exemplo – a Vera, é claro; não a Adalgisa –, assiste a todas as minhas peças, assim como meu pai, quando não está muito atolado no trabalho. Mas lá no princípio de tudo, ninguém realmente acreditava que eu fosse conseguir me sustentar só fazendo teatro.

E talvez não tivesse conseguido, realmente, se não me apresentasse também em outros lugares, fazendo stand-up comedy, cantando em bares, e escrevendo e adaptando textos para companhias de teatro mais relevantes. E se o aluguel no edifício Toscano não estivesse um pouco abaixo do mercado…

Mas deixe isso pra lá. O que eu estava explicando era que a maioria dos meus colegas do teatro não conta muito com o apoio das famílias, ou mora muito distante deles, de modo que acabam se sentindo meio sozinhos nessa época do ano. Por isso que, no ano passado, nós reunimos todos os “rejeitados” para passar a noite de natal no casarão. Fizemos a ceia lá mesmo – no salão onde realizamos as festas e os ensaios de dança –, um amigo secreto, estouramos champanhe… Enfim, fizemos uma pequena bagunça – totalmente autorizada pela diretoria do grupo, é claro.

Mas esse ano decidimos encerrar as apresentações mais cedo, e quase todo mundo acabou fazendo um esforço a mais para viajar e ver os parentes distantes. Só restou pouco mais de meia dúzia de pessoas sem planos para o natal, então, decidimos reunir a galera no nosso apartamento – porque a maior parte dessas pessoas mora no nosso prédio, e nosso apartamento é o menos atulhado –, e fazer uma festinha.

E o motivo de eu me encontrar nessa lista dos “rejeitados” é que, como foi citado anteriormente, mamãe, Roberta e Pablo vão passar o natal na casa da tia Vilma, e obviamente, tia Rosália estará por lá também – já que a velha mora no mesmo quintal –, e eu não estou a fim de estragar o meu natal. Como já disse, não gosto da tia Rosália, ela sempre me maltratou, e sempre deixou muito claro que eu era uma intrusa em sua família. Não tenho certeza se ela era má comigo porque eu não era filha biológica da sua sobrinha, ou se era algum tipo de amargura pessoal, porque os filhos dela morreram muito jovens num acidente de carro. Talvez ela só quisesse um bode expiatório, alguém para descontar suas frustrações e suas mágoas, mas ela que procurasse outro bode; não tenho obrigação de me oferecer em sacrifício.

_Aliás, me faça um favorzinho, filhota? – pediu meu pai.

Assenti.

_Tente não ser presa hoje.

_Vocês nunca vão conseguir esquecer isso, né? – reclamei, na defensiva.

Ano passado eu fui presa na véspera de natal, porque, resumindo ridiculamente, eu fui apanhada pilotando um trenó roubado do Papai Noel. Na verdade, o trenó era só uma carruagem normal puxada por duas renas, e nem me pergunte onde foi que o sujeito arrumou aquelas renas, mas a produção toda fazia parte de uma promoção do shopping local, que oferecia aos clientes – às crianças, principalmente – um passeio de dez minutos no trenó do Papai Noel a cada duzentos reais em compras. Mas, em minha defesa, eu não tenho culpa se o cidadão largou o trenó estacionado bem na saída do estacionamento atrás do casarão, obstruindo a passagem dos carros, com as rédeas no contato, e foi encher a cara de cerveja no boteco ali em frente. Tudo o que eu fiz foi subir no trenó, e… Qual é o termo correto? Dar a partida?… Enfim, dei uma sacudida nas rédeas para fazer as renas se mexerem, e afastar um pouquinho aquela bugiganga para a gente poder tirar os carros e ir para casa. Afinal, já eram quatro horas da manhã! Daí alguém avisou o sujeito que o trenó estava andando, ele começou a correr atrás de mim, chamou atenção de uma viatura que vinha passando, e, até explicar que urubu não é papagaio, acabamos passando o resto da noite na delegacia. Felizmente, o Bom Velhinho acabou não formalizando a queixa no final das contas, e eu considerei esse ato de bondade como meu presente de natal, vindo diretamente do Pólo Norte – que, excepcionalmente naquela noite, estava com uma filial aberta no boteco da esquina. Mas aparentemente esse ano ele decidiu descontar roubando o carro funerário do meu pai. Se continuar nesse ritmo, o próprio Papai Noel vai acabar sendo incluído na lista das crianças malvadas. E, pensando pelo lado bom, no futuro eu certamente terei muitas histórias boas para contar aos meus netos no natal.

_Bom, do jeito que as coisas andam, passar o natal na delegacia está virando uma tradição de família, não é, pai? – alfinetei.

_E arrumar briga com o Papai Noel também – acrescentou Raul. – Cuidado, senão a gente nunca mais vai ganhar presente de natal, hein! Papai Noel vai passar longe da nossa chaminé.

_Besteira! – bufou Roberta. – Nós não temos chaminé.

_Da varanda, que seja – Raul deu de ombros.

_Nossa família já está na lista negra do Papai Noel desde muito antes de vocês nascerem – disse mamãe. – Já contei para vocês sobre o nosso primeiro natal depois de casados? Quando o seu pai foi fazer um show em Santo Amaro, o show terminava às dez, ele ia pegar uma carona pra chegar em casa antes da meia-noite; chegou em casa cinco horas da manhã caindo de bêbado e fedendo a urina!

_Já contou um milhão de vezes – disse meu pai. E arrematou com uma risadinha. – O pior é que o bêbado era eu, mas quem estava vendo coisas era você.

_Ficou doido?! – indagou mamãe.

_Me chamou de bonito.

_Não te chamei de bonito. Foi uma crítica, com desdém. Bonito, hein?!

_Agora você vê… E eu passei todos esses anos todo orgulhoso pensando que você estava falando de mim…

_Rá! Palhaço…

Havia um ponto de interrogação gigantesco no rosto do Pablo, enquanto ele ouvia Roberta explicar aos sussurros do quê mamãe estava falando. Claro que, de primeira, todo mundo fica confuso ao ouvir que meu pai chegou em casa bêbado de um show e fedendo a urina. Isso é muito natural, porque a maior parte das pessoas – especialmente as que têm menos de trinta anos ou não nasceram no Brasil – não sabe ou não se lembra que meu pai já foi músico.

Foi no final dos anos 1980, o auge do rock brasileiro. Meu pai era o guitarrista da banda Vagabundos S.A., que não chegou a ser um fenômeno, mas fez relativo sucesso com os dois primeiros discos. Por causa do sucesso da banda, meu pai era muito assediado pelas mulheres. Minha mãe sempre tenta nos convencer de que não tinha ciúme, mas sabemos que isso não é completamente verdade. Fica até difícil acreditar nisso, porque, como é de conhecimento público, meu pai nunca valeu um vintém! Tanto é que, Raul não tinha nem dois aninhos quando eu aconteci, e isso quase o separou da Vera. O que acabou por convencê-la a perdoar seu deslize – que ele sempre alegou ter sido o único em todo o tempo que ficaram casados –, foi a descoberta de que a Roberta estava a caminho. Mamãe ficou apavorada com a ideia de ficar sozinha com dois filhos pequenos. Não aquela insegurança causada pela falta de um homem ao seu lado, mas uma espécie de culpa por criá-los longe do pai. E além disso, ela o amava demais, e estava realmente disposta a lutar pelo casamento.

É desnecessário dizer que não deu certo, afinal, já mencionei que meu pai viera almoçar conosco trazendo sua terceira esposa. A banda acabou em 1992; Roberta e eu éramos bebezinhas ainda, e meu pai percebeu que, se Vera estava realmente disposta a lutar pela família, ele tinha que mudar alguns hábitos também. A música não era um problema, mas o assédio da mulherada, sim. Especialmente porque meu pai, como eu disse, não tinha um autocontrole assim tão bom. Então ele decidiu sair da banda e procurar um trabalho mais normal.

Por uma cadeia de circunstâncias complicada demais para ser relacionada neste momento, ele acabou se tornando agente funerário, primeiro numa firma lá no centro da cidade, e mais tarde, na periferia, num negócio próprio. Foi o antigo patrão dele na funerária lá do centro que o convenceu de que esse era o melhor negócio para ele investir o dinheiro que tinha guardado dos tempos da banda, pois nunca falta cliente, não existe crise nesse tipo de negócio, o cliente não reclama, e nunca tenta devolver a mercadoria. Tenho a impressão de que o sujeito dissera tudo isso para que meu pai investisse na funerária dele, mas meu pai pegou a dica do cara, percebeu que ele tinha razão, e decidiu investir no próprio negócio.

Não sei se ele chegou a se arrepender por ter aberto esse negócio, mas sei que ele sentiu falta da música esses anos todos. A guitarra dos Vagabundos S.A. passou a ser usada somente nos churrascos e festas de aniversário da família; o violão se tornou um companheiro das noites de insônia, e até hoje fica guardadinho num canto no escritório da funerária, e ele toca sempre que fica muito tempo sozinho lá dentro. Desconfio que ele faz isso para espantar um pouco a melancolia do lugar.

O caso é que, mesmo nunca tendo reclamado de sua mudança de profissão, papai não estava completamente feliz. Outros problemas apareceram para perturbar o casamento dele com a Vera, problemas mais complicados que a fraqueza dele por mulheres, e, no fim, o divórcio acabou sendo inevitável. Eu tinha sete anos quando aconteceu. Cheguei a pensar, por um momento, que teria de ir embora com o meu pai, mas a Vera não permitiu que ele me levasse. Disse que eu era filha dela também, e que ela não abriria mão de nenhum dos filhos. Acho que nunca contei para ela que naquele dia o motivo do meu choro não era bem o fato de o meu pai estar indo embora – bem, eu chorei por isso também, é claro –, mas porque, ao ouvi-la dizer essas coisas – quando ela não sabia que eu estava ouvindo –, eu senti, pela primeira vez, que ela tinha perdoado o fato de eu não ter nascido dela, e que ela me amava de verdade. E aquilo foi o mundo para mim, porque eu também a amava.

Mas, voltando à noite de natal em que meu pai chegou bêbado em casa, e que Roberta estava contando para o Pablo aos cochichos, mamãe estava grávida do Raul na época, e meu pai prometera chegar antes de meia-noite. Só que os rapazes da banda terminaram o show, e o dono do bar ofereceu uma rodada de bebidas de cortesia, por ser véspera de natal, e meu pai decidiu tomar um Martíni. E antes de concluir esse relato, é preciso esclarecer que meu pai nunca foi muito forte para bebidas, e nunca tinha tomado Martíni também. Resultado: o negócio bateu e subiu num segundo. E não bastasse uma dose, meu pai decidiu tomar seis! Daí ele começou a contar piada, rir à toa, dançar em cima do balcão do bar, fingindo tocar uma guitarra invisível… Até aí, tudo bem. Mas quando ele começou a tirar a roupa, o dono do bar decidiu dar um basta e colocou todo mundo para correr – todos os membros da banda, quero dizer.

Ninguém estava em condições de dirigir naquela noite. O empresário deles já tinha ido embora, no carro que levava os instrumentos, porque não quis participar da rodada de birita grátis, justamente para não tomar um esporro da patroa por não aparecer em casa na véspera de natal – Vera sempre reclama porque meu pai não teve esse bom senso –, então eles tiveram que pegar um ônibus. E como já era madrugada de natal, eles eram os únicos passageiros a bordo, além de um cara fantasiado de Papai Noel, que devia estar voltando de alguma festa ou evento. E como estavam para lá de Bagdá, meu pai e os colegas da banda começaram a fazer bagunça lá no fundo, e a mexer com o coitado do Bom Velhinho, cantando trechos de “eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel” e “Jingle bell, jingle bell, acabou o papel”… Mas aí quando alguém insinuou que o que era para limpar era o do Papai Noel, o velhinho levantou e ameaçou descer o sarrafo nos baderneiros. Claro que ninguém poderia imaginar que, por baixo de toda a espuma da pança do Bom Velhinho existisse um cara anabolizado e faixa preta em Jiu-Jitsu! Os Vagabundos S. A. tomaram uma surra monumental do “Papai Noel”, e foram definitivamente incluídos na lista das crianças malvadas que jamais ganharão presentes de natal. Apesar de que eles ganharam um. Só não ficou muito esclarecido de quem eles ganharam – se deles próprios ou se foi obra do Papai Noel também. Meu pai muda a versão cada vez que minha mãe toca no assunto. O que sabemos, com certeza é que, batuque vai, batuque vem, porrada vai, porrada vem, alguém tinha muito álcool na ideia, e muito líquido na bexiga… Até hoje não sabemos quem foi que urinou em quem. O fato é que meu pai chegou em casa com xixi em partes da roupa em que não era possível que fosse tudo dele.

Então quando ele chegou em casa cinco horas da manhã, ainda mamado, com aquele futum horroroso, minha mãe abriu a porta, olhou bem para a cara bêbada dele, deu uma filmada em suas roupas imundas, e alfinetou: “bonito, hein!”. E qual foi a reação do meu pai? Pedir perdão? Desabar em lágrimas? Claro que não! Ele simplesmente se sentou no degrau da porta, e rachou o bico de tanto rir. Não que ele estivesse debochando do mau-humor da minha mãe, ou achando a situação tão engraçada, o caso era que o Martíni ainda estava fazendo efeito.

_Foi muito engraçado – riu-se meu pai, quando Roberta terminou de contar a história ao namorado.

_Foi vergonhoso! – contradisse minha mãe. – Eu passei o natal sozinha, enquanto esse Zé Ruela estava na farra, enchendo a cara, e ainda por cima arrumando briga na rua.

_Eu não arrumei briga nenhuma! – defendeu-se meu pai. – Não foi culpa minha se o gerente nos expulsou do bar.

_Ué… Então quem foi o Domingos Nogueira, seu xará, que começou a fazer Strip-tease no balcão? – indagou minha mãe.

_E quem foi que tomou uma coça do Papai Noel no busão? – acrescentou Raul.

_Eu estou começando a achar que o velhinho não tão bom assim não vai com a minha cara: já me bateu, já mandou minha filha pra cadeia, agora roubou meu rabecão… E nunca me deu um videogame.

_Pobrezinho… – desdenhou Malu.

_Pensando bem, que bom que nós não temos chaminé – disse Raul –, porque, do jeito como a nossa família gosta de aprontar com o Papai Noel e ele conosco, eu não estranharia se um dia ele entrasse pela chaminé, e caísse na lareira acesa.

_Quem deixa a lareira acesa em pleno verão? – perguntei.

_Esse é o ponto! – disse Raul. – Quem é que apanha do Papai Noel? E ainda quer que ele te dê um videogame, paizão? Faz mais barato…

_A gente precisa fazer as pazes com o pessoal do Polo Norte. Porque do jeito que a coisa vai, qualquer hora eu vou ter que adotar um elfo órfão para tentar sair da lista negra do velho.

_Acho que só daria certo se você fosse a Angelina Jolie, paizinho – comentou Roberta.

Na verdade, acho que nossa família precisaria adotar toda a população de órfãos e refugiados da África se quiséssemos tentar o acesso para fora da lista negra do Bom Velhinho. Porque pouca gente já teve tantos contatos imediatos surreais com o Papai Noel quanto a nossa família.

Pensando bem, acho que ninguém teve tantos contatos imediatos surreais com o Papai Noel quanto nós. Dia desses ele vai fazer uma greve, e nós seremos as pessoas mais odiadas do planeta.

Terminamos de almoçar tranquilamente, distribuímos e recebemos lembrancinhas de natal, pedi que meu pai desse notícias sobre o resgate do rabecão e a eventual prisão do Papai Noel e seus capangas, e então Cristiana e eu voltamos para casa para fazer os preparativos da noite.

A partir daí, nosso dia passou a ser governado pela lei de Murphy que diz que se alguma coisa puder dar errado, dará; e dará na pior hora, e da forma que cause o maior dano possível. A decoração do apartamento estava ok – aliás, estava pronta desde o início de dezembro. Todo o resto, no entanto…

Ficou combinado que cada um dos convidados traria um prato para a ceia, então, basicamente, só tínhamos que nos preocupar com a nossa parte, que consistia do purê de batatas e das batatas que eu pretendia assar para acompanhar o peru – este, comprado pelo Casanova; mas como ele não fazia ideia do que fazer para deixá-lo dourado e suculento, acabamos nos oferecendo para assá-lo, assim, pelo menos, era certeza de que não comeríamos o bicho cru. E também resolvia o problema de ter que atravessar um pedaço de São Paulo com um peru assado no banco de trás do carro em plena véspera de natal. Assim não se corre o risco de ter o carro depredado no sinal e acabar chegando aqui só com o rabicó do bicho. Não que isso já tenha acontecido com alguém que eu conheça, mas nunca se sabe…

E Cristiana ainda iria fazer a sopa especial de vegetais, receita da avó dela, que, por tradição de família, garantia a quem comesse um feliz natal. Diz a lenda que havia um ingrediente secreto na sopa que garantia essa tal felicidade, mas, seja lá o que for, não parece ter tido qualquer efeito em mim nos anos anteriores. A menos que tenha sido camuflado pelo vinho tinto, né… Vai saber.

Nós já tínhamos temperado o peru na noite anterior, e eu usara o mesmo tempero nas batatas, que teria que assar separado, porque não caberia tudo de uma vez no nosso forno. Mas antes que pudéssemos ter a chance de colocar qualquer coisa para assar, Valentina, uma das convidadas da noite, que mora no andar de cima, apareceu com o primeiro contratempo: ela tinha prometido trazer uma rosca de nozes – que deixou todo mundo com água na boca no natal do ano passado, salivando por mais um pedaço –, porém o forno dela escolheu justamente a véspera de natal para dar o último suspiro. Então ela trouxe os ingredientes, e pediu para assar a rosca no nosso apartamento.

Até aí, tudo bem; era só uma questão de organizarmos os horários, e tínhamos tempo de sobra para preparar tudo. Mas aí, enquanto eu colocava as batatas para assar – decidi assar primeiro as batatas, pois a forma era menor, e caberia a assadeira da Valentina ao mesmo tempo, o que nos deixaria com tempo de sobra para dar um bronze no peru até às oito da noite – o segundo infortúnio apareceu.

Era por volta das duas e meia da tarde, quando o Seu Ezequiel, porteiro do prédio interfonou para o nosso apartamento, e pediu para falar comigo. Tive a impressão de que ele tinha interfonado para o apartamento errado, porque, aparentemente, ele só queria me contar, com todos os detalhes, o desfecho da novela da árvore de natal do Seu Nonato, meu vizinho de frente, que finalmente foi entregue agora a pouco, depois de quase trinta dias de espera e muitas brigas com a loja – um drama que o prédio inteiro, ou pelo menos, a maior parte dos vizinhos, acompanhou. Mas a empresa que fez a entrega só levou até a portaria, colocou no elevador, apertou o botão para deixá-la subir sozinha – até porque a árvore era grande demais para que coubesse alguém no elevador junto com ela, fosse um anão, uma criança ou um animal de pequeno porte –, enquanto o Seu Nonato, que descera para assinar a entrega, subia no outro elevador para pegá-la lá em cima.

_Ah, que bom, Seu Ezequiel. Fico feliz que o Seu Nonato tenha conseguido receber a árvore de natal antes da páscoa – disse, sem muito entusiasmo, louca para me livrar da rádio portaria e voltar aos meus afazeres.

Cristiana começou a gesticular, querendo saber o que estava acontecendo, e eu gesticulei de volta que ele estava falando um monte de bobagens. “Não sei o que ele quer”, acrescentei sem emitir som.

Enquanto isso, Seu Ezequiel prosseguia com a ladainha na minha orelha. Depois de emendar a novela do Manuel Carlos na do Silvio de Abreu, com participação especial da Ivete Sangalo no último capítulo cantando uma música da Cláudia Leitte, o porteiro explicou que enquanto o Seu Nonato subia no outro elevador para pegar a árvore no andar dele, a Dona Zélia, do apartamento 43 chamou o elevador lá na garagem; justamente o elevador que estava com a árvore de natal.

_Sei… – balbuciei, fazendo um ok para a Valentina com o polegar, quando ela me perguntou se podia usar o liquidificador enquanto eu conversava (na verdade, enquanto eu escutava a ladainha do porteiro).

_Daí, quando o Seu Nonato chegou lá em cima, o elevador não estava no andar – prosseguiu ele, sem dar indícios de que iria acelerar a velocidade da fofoca.

_Ah, tá – interrompi. – Olha só, Seu Ezequiel, é uma história fascinante, mas a minha batata tá assando, literalmente, então, se puder me fazer um resumo, comece pelo que eu tenho a ver com isso?

_Bom, acontece que, quando o elevador chegou na garagem, e a porta abriu, a árvore tombou, quase caiu por cima da Dona Zélia, e como a sua vaga é bem de frente com o elevador, eu acho melhor você descer e tirar o seu carro, senão vai acabar arranhando.

_Ora, e por que não me disse isso antes, criatura? Eu já vou descer. Obrigada!

_O que aconteceu? – perguntou Cristiana, assim que larguei o interfone.

_A Dona Zélia e uma árvore de natal caíram em cima do meu carro. Eu vou lá, antes que façam um estrago na minha lataria. Fiquem de olho no forno.

E saí apressada.

_Como é que uma árvore de natal caiu em cima do carro dela? – perguntou Valentina, assim que bati a porta.

_É melhor não tentar entender – disse Cristiana, descartando a pergunta. – Nesse prédio acontece cada coisa que, se contar, ninguém acredita!

E, antes que alguém pergunte, não, não tenho ouvido biônico, mas me contaram essa parte depois, quando me contaram sobre o infortúnio número três, de que vou falar daqui a pouco.

Porque quando desci para tirar o carro da vaga, pelo elevador que não estava interditado pela árvore de natal do Seu Nonato, vi a dita cuja caída, com a ponta sobre o meu capô, e a base ainda dentro do elevador, em tempo de ser cortada pelas portas de aço que abriam e fechavam a intervalos regulares. Dona Zélia ainda estava lá em baixo, soltando os cachorros em cima do Seu Nonato, que parecia mais pálido que de costume vendo a árvore de natal pela qual tanto brigou em tempo de ter a base amputada pelas portas do elevador. Pelo que entendi, ele tentava balbuciar para a Dona Zélia que ainda não tinham levantado a árvore, para tentar enfiá-la de novo no elevador e fazê-la concluir o trajeto até o apartamento dele porque ela entalara ali na porta.

_Gente, onde é que você vai enfiar uma árvore desse tamanho? – perguntei, encarando o trambolho amontoado sobre a minha vaga, e sobre o meu carro. – No terraço?

_Que te importa? – respondeu Nonato, aborrecido.

_Importa que o carro que a sua árvore está usando como estrela de natal é meu! E se tiver um arranhãozinho que seja, você vai pagar! Agora, faça o favor de segurá-la levantada para eu tirar meu carro da vaga.

_Como eu vou levantar? – berrou ele. – Não vê que ela está presa?

_Ora, mantenha a ponta levantada até eu tirar o carro para não arranhar!

_Eu ajudo o senhor, Seu Nonato – prontificou-se o porteiro.

Bem, o contratempo número dois foi resolvido sem mortos nem feridos – pelo menos, no tocante ao meu carro: consegui tirá-lo da vaga devagar, enquanto Seu Nonato e Seu Ezequiel mantinham a ponta da árvore de natal levantada, e o coloquei numa das vagas de visitantes. Conferi o estrago: felizmente, a lataria estava intacta. Já imaginava o tamanho da dor de cabeça que seria tentar arrancar uma moeda que fosse do muquirana do Seu Nonato, se tivesse um arranhãozinho que fosse no meu capô.

Enquanto essa confusão se desenrolava na garagem, Cristiana e Valentina encomendavam o contratempo número três. Tem outra lei de Murphy que diz que tudo sempre leva mais tempo do que todo o tempo que você tem disponível. Principalmente se você já estiver com o dia todo congestionado.

Bem, esse terceiro contratempo começou quando a dona Dolores – ou Dona Horrores, como preferimos chamar –, a mulher do Seu Nosferatu… Digo, Seu Nonato – sim, o fulano da árvore de natal tamanho Fat Family –, que mora no apartamento em frente ao nosso – número 71, a propósito, se sua cara de bruxa quer dizer alguma coisa –, bateu no nosso apartamento pedindo ajuda para trocar a cortina da sala. Ao que tudo indica, o casal esperava receber os filhos e os netos naquela noite, e queriam fazer uma decoração de última hora no mafuá atulhado de bibelôs e quinquilharias que era sua sala de estar. O problema é que a Dona Horrores não podia subir na cadeira ou na escada para trocar a cortina, por causa de sua labirintite – que eu suspeito ter qualquer coisa a ver com as dúzias de garrafas de conhaque que eu vejo aquela mulher carregando elevador acima todo mês –, e  como o marido estava resolvendo o pepino do pinheirão lá na garagem, ela foi pedir socorro lá em casa.

Bem, não custa nada fazer um favor a uma vizinha idosa. Principalmente à Dona Horrores, que, para dizer a verdade, mais nos diverte do que incomoda. E ainda me dá muito material para escrever minhas comédias, verdade seja dita.

O problema é que a cortina era enorme, e muito pesada, e Cristiana, que foi a primeira a atravessar o corredor para ajudá-la, percebeu que passaria o dia inteiro no apartamento da bruxa se tivesse que pendurar aquilo sozinha. E provavelmente distenderia algum músculo tentando erguê-la até os suportes de parede. Então ela chamou Valentina para ajudar. Resultado: quem foi que ficou vigiando o forno?

Exato! O homem invisível. E como ele é um ser imaterial, não tinha como desligá-lo. Daí, quando as duas finalmente conseguiram se livrar da cortina da Dona Horrores, mais ou menos ao mesmo tempo em que eu retornava ao nosso andar, depois de ter batido boca com o Seu Nonato, com a Dona Zélia, com o entregador da árvore de natal, com a folgada da Karina Periguete, que veio encher o saco porque o meu carro estava numa das vagas de visitantes, justamente a vaga que um dos seus peguetes – pode ser que ela tenha dito o nome do fulano, mas eu não decoro mais os nomes dos peguetes daquela periguete, porque senão vou precisar fazer uma expansão no meu HD cerebral – gosta de usar, e depois acabei me envolvendo em outra discussão com um morador do quinto andar porque dois dias atrás, uma garrafa de cerveja caiu da nossa varanda e se estatelou num vaso de plantas da varanda dele – longa história –, e ele achou que tinha sido de propósito… Enfim, eu fui me enrolando de encrenca em encrenca, até retornar ao nosso andar. Cheguei bem na hora em que a Cristiana e a Valentina saíam da casa da Dona Horrores, rachando de rir de alguma coisa, e nos deparamos com um horrível cheiro de queimado invadindo o corredor.

_Que cheiro é esse? – perguntei, ao sair do elevador.

_Tem alguém pensando na vida – comentou Cristiana ao mesmo tempo.

_Parece mais que alguém queimou a ceia de natal – observei.

_E parece que tá vindo…

_Ai, Jesus! Minha rosca! – gritou Valentina, de repente, correndo para dentro do apartamento.

A rosca ficou completamente esturricada. Mas a boa notícia é que as minhas batatas estavam no ponto perfeito.

_Droga! – murmurou Valentina, sobre a rosca natalina. – Torrou!

_Por que não desligaram o forno antes de sair? – perguntei.

_Por que ainda não estava boa.

_E também, a gente não imaginou que fosse demorar tanto para colocar a cortina da Dona Horrores! – disse Cristiana. – Mas a cortina da bruxa tinha mais camadas que saia de baiana! Quase que a gente não termina nunca de enfiar renda naquele varão.

_O pior é que agora eu vou ter que fazer outra rosca – disse Valentina, jogando a massa queimada no lixo. – Isto é… Se eu encontrar nozes em algum lugar hoje.

_Que cheiro é esse? – perguntou Ivan, nosso vizinho de cima, entrando no apartamento. – Tá pegando fogo em alguma coisa aqui? Eu vi a fumaça subindo pela janela…

_Queimou a rosca da Valentina – disse Cristiana.

_Não fala assim, não, que você acaba com a reputação da menina – riu-se Ivan.

_Tá, eu vou dar uma corrida lá no mercado para comprar mais nozes, senão não vai dar tempo de assar outra – disse Valentina, ignorando as piadinhas.

_A gente vai assar o peru, enquanto isso, e você assa a rosca depois, senão a gente vai acabar comendo o bicho cru – avisei.

_Tá. Eu já volto.

Assim que ela passou pela porta, Ivan disse ao que realmente veio.

_Olha só, eu sei que esse é o maior clichê do mundo, mas, será que vocês poderiam me emprestar uma xícara de açúcar? Não precisa ser numa xícara, é só maneira de falar…

_Claro – respondi, revirando os olhos, depois de colocar o peru no forno e reajustar a temperatura.

E despejei o açúcar numa tigela.

_Desculpa aí o incômodo – disse ele.

_Sem problemas, Ivan.

_Ainda que mal pergunte, qual é a delícia que você está preparando? – perguntou Cristiana. Ou a draga que ela oculta na barriga.

_É surpresa. Daqui a pouco você vai ver. Até mais tarde, lindas!

Como numa sitcom, ele saiu do apartamento e quase trombou com a Dona Lourdes, síndica do prédio, na porta.

_Eu posso saber, dona Emanuelly, o que o seu carro está fazendo na vaga de visitantes? Você está visitando alguém no prédio, por acaso?

_Boa tarde pra senhora também, Dona Lourdes – disse Cristiana, com sarcasmo.

_Acontece, Dona Lourdes, que meu carro quase foi esmagado por uma árvore de natal, que aliás, continua lá ocupando a minha vaga. E se arranhasse? Se amassasse minha lataria? Se quebrasse o para-brisas, um farol, um retrovisor? Como é que eu ia explicar isso pro meu seguro?

_A senhora não soube do rolo com a árvore de natal do Seu Nonato?

_Se não soube, meu bem? – respondeu ela, mal-humorada. – Aquele trambolho está até agora interditando um dos elevadores do nosso bloco. Justamente no dia mais movimentado do ano. A fila para usar o elevador logo, logo vai estar virando a esquina!

_Se a senhora já sabia do ocorrido, porque se deu ao trabalho de vir aqui perguntar?

_Ora, e você acha que eu sei qual é a vaga de cada um dos condôminos de cor? E como estamos recebendo muitas visitas hoje, eu tinha que verificar porque um morador estava ocupando uma das vagas de visitantes.

_Bem, acho que já esclarecemos, então…

_Certo… Mas assim que desobstruírem a sua vaga, faça o favor de colocar seu carro de volta lá.

_Tá certo, Dona Lourdes. Feliz natal!

_Feliz natal!

_Milagre ela não pedir a lista completa de quantas pessoas vão vir aqui em casa hoje – comentou Cristiana, assim que fechei a porta atrás da síndica.

_Não pediu ainda, né, Cristiana.

_A Dona Lourdes precisa de terapia.

_Ter a pia cheia de louça para não ter tempo de cuidar da vida dos outros! Tomara que ela receba todos os parentes, do abba ao zaba, hoje à noite para ficar bem ocupada e não ter tempo de vir encher o nosso saco.

_Du-vi-de-ó-dó! – disse Cristiana. – Se eu entendi bem, a Dona Lourdes não tem parentes vivos, exceto aquela irmã que ela fala que mora no Piauí. Filhos ela também não tem. E parentes do falecido, se é que existem, não devem visitá-la há séculos! Desde que a gente mudou para cá, eu nunca soube que ela recebeu nenhuma visita de parentes, e você sabe como a língua do Seu Ezequiel é grande. E pelo tempo que ela despende cuidando da nossa vida, acho que nunca recebe ninguém, mesmo.

_Pior que é, né… – percebi, de repente. Já fazia uns quatro anos que a gente morava lá, e eu realmente nunca soube que a Dona Lourdes tivesse uma visita que fosse no apartamento. – Puxa vida, será que ela não tem nenhuma amiga? Nada…?

_Sei lá. No fundo eu tenho dó da Dona Lourdes. Ninguém merece ficar tão sozinha. Acho que cuidar da vida dos outros é a única diversão que restou a ela.

_Mas não precisa abusar, né!

_O Ivan disse que ia comprar cinco gatos para dar para ela de presente de natal. Assim ela vai ter trinta e cinco vidas para cuidar. Quem sabe esquece a nossa?

_Não é má ideia – concordei, com uma risadinha.

Valentina demorou uma eternidade – mais ou menos umas três horas – para voltar com as nozes. Só conseguiu encontrar lá no Tatuapé. A maior parte dos supermercados onde ela foi não tinha; e os que tinham estavam tão lotados que ela dificilmente conseguiria sair de lá antes do Dia das Mães.

Ela bateu a massa depressa, e deixou descansando enquanto o peru terminava de assar. E aproveitou a pausa para voltar ao seu apartamento para tomar banho e se arrumar para  a ceia, deixando instruções sobre o tempo que a rosca devia assar – depois que o peru desocupasse o forno, é claro.

_Acho que eu volto antes de o peru terminar de assar – disse ela, abrindo a porta.

Foi bem oportuno fazer isso. Pegou Dom Pedro Falabella – vulgo Pedrão –, namorado da Cristiana, com a mão erguida, prestes a tocar a campainha.

_Aí, Cristiana, a sua ceia chegou! – anunciou Valentina, cumprimentando Pedrão, e saindo em seguida.

_Oba! – riu-se Cristiana, colocando de lado a faca com a qual cortava os legumes para a sopa.

Pedrão trazia uma travessa na mão, e duas sacolas de papel penduradas no braço: uma com o presente do amigo secreto, e outra com o presente da namorada.

_Hum… Papai Noel chegou mais cedo! – disse Cristiana, extasiada, sentindo o cheiro delicioso que vinha da travessa. – É o que eu estou pensando?

_Ah, amor, estragou minha surpresa – disse ele, fingindo tristeza. – Como adivinhou que eu comprei seu perfume favorito.

Cristiana deu risada.

_Eu falava do macarrão – explicou ela.

_Ah… – balbuciou ele, fingindo surpresa. – Sim, é o meu macarrão especial.

_Qual é meu perfume favorito, falando nisso? – perguntou Cristiana, que era particularmente famosa por seu gosto camaleônico para perfumes. Quase todos em embalagem econômica, ou amostra grátis. Velhos hábitos de uma consultora de empresas de cosméticos vendidos por catálogo.

_Espero que seja o que eu comprei – disse Pedrão, entregando-lhe a sacola.

_A partir de hoje é, com certeza – disse ela, agarrando-a animada. – Posso abrir agora, ou só à meia-noite.

_À vontade – disse ele.

_Vou experimentar agora.

Se o que ele comprou não era o perfume favorito dela, estava no Top Five, com certeza, porque eu não me lembro da última vez que eu não vi uma amostra grátis daquela fragrância na penteadeira da Cristiana.

Decidi aproveitar a chegada dele para deixá-los de olho no forno, e também saí de fininho para me arrumar.

E foi durante a minha ausência que aconteceu o desastre número quatro.

Em algum momento enquanto eu estava no chuveiro, o peru terminou de assar, e Cristiana colocou a assadeira de Valentina no forno. Valentina, aliás, se arrumou em tempo recorde, e voltou para montar guarda diante do forno, até que sua nova empreitada estivesse no ponto. E enquanto ela assistia a cada etapa do cozimento da rosca, alguém teve a brilhante ideia de desfilar pela sala com o peru na travessa…

Não querendo dar dedos nem apontar nomes, como diria Jack Sparrow, mas desta vez, a trapalhada foi culpa do Pedrão. Ou melhor, foi o Piripaque. Não, pensando bem, foi culpa do Pedrão, sim! Afinal, foi ele quem catou a travessa no balcão, brincando com a Cristiana – parece que rolou alguma polêmica a respeito da previsão de que haveria mais brigas pelas coxas daquele peru do que pelas da Magda, do Sai de Baixo –, Pedrão disse que ia comer o peru inteiro sozinho, e atravessou a sala com Cristiana em seu encalço, tentando pegar o peru de volta; daí levanta a travessa, abaixa a travessa, dribla um, dribla outro, desvia do cachorro, escorrega no capacho da varanda, o peru escorregou da travessa, e…

Despencou lá embaixo!

Quando saí do banheiro, enrolada na toalha, para ir para o meu quarto colocar meu vestido e ficar linda para a ceia de natal, percebi um silêncio muito anormal na casa, e achei melhor ver quem tinha morrido. Ou, em todo caso, se tinha alguém vigiando o forno ou se tinha saído todo mundo – de novo. Dei de cara com uma cena que falava por si só: Cristiana estava parada na porta da varanda, cobrindo a boca com as duas mãos, observando Pedrão, que estava meio debruçado na varanda, meio escondido detrás de uma samambaia; Valentina olhava para os dois de seu posto de vigia em frente o forno, com uma expressão apreensiva, agarrada no Piripaque, que latia meio assustado, meio excitado.

A propósito, Piripaque é o nome do nosso cachorrinho chihuahua. O motivo desse nome é uma longa história, e provavelmente não o único motivo porque esse cachorro um dia precisará de terapia.

Como ia dizendo, assim que vi aquelas caras culpadas, preocupadas e atordoadas – não necessariamente nessa ordem – tive certeza de uma coisa: tinha dado alguma merda.

Tive até medo de perguntar.

A compreensão só veio quando percebi que a coisa que Pedrão segurava de lado como se fosse um livro era a travessa do peru.

_Hã… Onde está o cidadão que deveria estar deitado aí? – perguntei, cautelosamente, assim que Pedrão se voltou para dentro do apartamento e apertou os lábios com cara de culpado.

Aliás, eu disse cara de culpado? Perdão… Quis dizer cara de MUITO culpado.

_O quê que foi, gente? – perguntei de novo, com um alarme disparado dentro da cabeça. – Cadê o peru?

Pedrão ergueu um braço e coçou a parte de trás da cabeça, nervoso. Cristiana fez uma careta nervosa. Valentina virou a cara para o forno quando tentei olhar para ela. Até o Piripaque pareceu se encolher no colo dela.

_Sabe o quê que é…? – Pedrão hesitou. – O peru estava assim, meio agitado… E decidiu sair voando… Pela janela…

Eu o encarei incrédula. Queria rir. Queria chorar. Queria gravar aquela cena para rir mais tarde. Queria matar o cidadão que estava se escondendo atrás da travessa vazia que poderia servir como prova ou arma do crime, eu ainda estava tentando decidir. Queria pular da janela também para não ter que explicar ao Casanova o que foi que aconteceu com o peru que ele comprou. Queria saber o motivo da gritaria lá embaixo. Será que os mendigos pularam o muro do condomínio para disputar as coxas do peru suicida?

Não. Suicida, não. O bicho não se jogou, foi um homicídio! Homicídio doloso! E em plena véspera de natal, atirar um peru assado pela janela do oitavo andar é crime inafiançável! E passível de prisão perpétua! Ou cadeira elétrica! Ou de uma vassourada na cara!

_Esquenta, não, que eu vou arrumar outro – disse Pedrão, correndo em direção à porta.

_Onde é que você vai achar um peru assado na véspera de natal? – perguntei. – E a essa hora? Se pelo menos fosse mais cedo…

_Precisa estar assado? – Ele deu um sorriso amarelo.

_Se quiser comer antes da meia-noite, precisa! – Fiz aquela voz de quem explica o óbvio.

_Tá, eu vou lá na Teodora, vou ver nas rotisseries, e em todas as padarias daqui até a PQP, mas eu dou um jeito de comprar um peru assado – ele disse, apressado, abrindo a porta. Percebi que ele estava louco para escapulir. – Se eu não achar, roubo de algum vizinho distraído, pode deixar.

_Procurar um peru assado hoje é como procurar moedas na cueca de um deputado – disse Valentina. – Se até as nozes, que não são a vedete da festa, eu tive trabalho para encontrar…

_Por que moedas na cueca de um deputado? – perguntei, estranhando. Às vezes era meio difícil entender as piadas da Valentina, porque o cérebro dela vive numa dimensão um pouco diferente do resto de nós. Um país conhecido como Mundo da Lua.

_Porque eles só guardam notas de cem dólares para cima – explicou ela, como se isso fosse óbvio.

Pensando bem, até fazia sentido.

_Que nota é maior que cem dólares? – indagou Cristiana.

Num dia normal, eu até explicaria que, num passado não muito distante, o Banco Central Americano imprimia notas de mil dólares, que só eram usadas em transações entre bancos – e pelo crime organizado, que aparentemente é chamado de organizado por algum motivo –, e que elas foram tiradas de circulação com o advento das transações tecnológicas, mas agora não era um bom momento. Passava de sete da noite, nós tínhamos uma rosca queimada, outra no forno, batatas assadas que precisavam ser esquentadas, uma sopa fervendo no fogão, o peru saiu voando pela janela, nossos amigos já deviam estar a caminho, e eu ainda estava de toalha! E esqueci de fazer o purê de batatas!

_Merda! – exclamei, encarando o teto branco.

_Relaxa! – disse Cristiana. – É só ele dar uma passada no apartamento do Serginho aí do lado, que ele deve saber onde conseguir um peru assado a essa altura do feriado.

_Estão vendendo peru assado na Galeria Pagé agora…? – indagou Valentina, confusa.

Para falar a verdade, já passava da hora de a gente atualizar essa piada. Chamávamos o apartamento do Serginho “Ranja Tudo” de filial da Galeria Pagé – devido a quantidade e a variedade de tranqueiras que era possível encontrar lá dentro – desde tempos tão remotos, que eu nem me atrevia a calcular, mas isso não vinha ao caso agora.

_Não… – expliquei, sobre a minha exclamação desanimada. – Esqueci de fazer o purê.

_Ah, isso… – disse Cristiana. – Relaxa! Eu já descasquei as batatas.

Corri então para a cozinha, tal como estava, enrolada na toalha de banho cor de vinho, e apanhei uma panela para fazer o purê. Cristiana se ofereceu para fazer, mas a sopa dela já estava praticamente pronta, e ela ainda não havia tido possibilidade de se arrumar. Além do mais, com um pouco de sorte, o vapor do fogão ajudaria a secar o meu cabelo mais rápido. Só esperava que não ficasse com cheiro de purê de batatas. Ou de sopa de legumes…

O purê, aliás, estava quase no ponto quando o Ivan apareceu de novo no nosso apartamento, com uma sobremesa tão elaborada que não consegui identificar o que era na hora. E como o interfone tocou exatamente enquanto ele a estava colocando na bancada da cozinha, pertinho do interfone, pedi para ele atender.

_Tá legal, eu aviso. Tchau, tchau – disse ele, antes de desligar e se voltar para mim. – Seu Ezequiel pediu para avisar que sua vaga está liberada.

_Puxa, eles levaram só o dia inteiro para desentalar a árvore de natal quilométrica do Seu Nonato do elevador, hein. Deve ser algum tipo de recorde.

De rapidez! Considerando a velocidade das coisas naquele condomínio. Ok, estou sendo injusta. Existem coisas que são feitas com bastante agilidade lá dentro. A fofoca, por exemplo.

_Bem, se desentalaram, eu não sei, mas desencalharam da sua vaga, pelo menos – disse Ivan, que, como se pode perceber, já estava completamente a par da novela do dia que manteve um dos elevadores interditados a tarde inteira, o que comprova minha afirmação anterior a respeito da velocidade da fofoca no condomínio. Esqueçam o wi-fi, aqui a fofoca já é 5G!

_O Nosferatu estava berrando no fundo – acrescentou Ivan. – Se eu entendi bem, amputaram o pé da árvore de natal dele para poder liberar a vaga e o elevador. Tinha dois metros de altura, agora deve estar com um e meio.

_Seu Nosferatu nunca teve dois metros de altura – contestou Valentina.

_Não, a árvore de natal.

_Já sei, a Dona Lourdes quer que eu tire o carro da vaga de visitantes, agora…? – deduzi.

_Isso aí.

_Me faz esse favor? – pedi ao Ivan, apontando as chaves em cima da bancada.

_Tá legal. Falando nisso, adorei o modelito. – E me olhou de cima abaixo, filmando minha toalha de banho. – Escolheu essa cor por causa do natal?

_Engraçadinho – respondi, dando uma risadinha.

Para dizer a verdade, não tinha me tocado que a cor da minha toalha estava combinando com o feriado. Também não contei a ele que a maioria das minhas toalhas são daquela cor.

Uma vez que o purê estava pronto, e o Ivan já tinha descido para colocar meu carro de volta na vaga e liberar a vaga de visitantes, corri ao meu quarto para terminar de me vestir. Valentina continuou montando guarda em frente ao forno, para garantir que nada mais desse errado com a rosca de nozes. Ouvi quando Ivan voltou, uns quinze minutos depois – um elevador interditado atrapalha muita gente –, e, por um instante, fiquei preocupada com a integridade física daquela sobremesa linda que eu ainda não deduzira o que era, mas envolvia chocolate, uma cobertura cor de caramelo e muitas frutas vermelhas. Alguém devia colocar aquilo na geladeira antes que acontecesse outro acidente.

Eu devia estar ficando paranoica. Mas era sempre melhor não tentar a sorte…

Meia hora mais tarde, eu estava vestida, calçada, penteada e maquiada. Quer dizer… Eu coloquei o vestido vermelho novo em folha, como tinha planejado, e meus sapatos de camurça combinando; terminei de secar o cabelo correndo e fiz um coque para dar uma impressão ondulada – truque de emergência, para quem tem o cabelo escorrido, naturalmente ou com química, e não está com tempo para recorrer ao babyliss –, soltei depois de mais quinze segundos de secador, só para ter certeza de que funcionaria, e, para dizer a verdade, não tenho muita certeza de ter passado rímel nos dois olhos, agora que parei para pensar nisso… Mas, observando as fotos da festa, eu estava linda, e é isso que importa.

Saí do quarto assim que senti que estava pronta, e coloquei o presente do meu amigo secreto embaixo da árvore de natal, num canto da sala, ao lado dos presentes comprados pela Cristiana, pela Valentina, pelo Pedrão e pelo Ivan. Notei que tinha um presente a mais embaixo da árvore. Deduzi que mais alguém havia chegado enquanto eu me maquiava. Talvez estivesse no banheiro.

Valentina estava desenformando a rosca de nozes quando me voltei para a cozinha.

_Essa ficou perfeita – anunciou ela, tirando as luvas térmicas. Regou a guloseima com uma calda de coco que tinha preparado enquanto a primeira rosca estava assando, e que ficou o dia inteiro esfriando sobre a mesa, terminou de decorar com pedacinhos de morangos frescos, e colocou-a com todo cuidado na bancada, ao lado da sobremesa do Ivan, que agora eu percebia que era uma espécie de bolo ou pavê, provavelmente de chocolate, com glacê escuro e frutas vermelhas.

Enfim, não entendi bem o que era, mas aquilo animou meu estômago. Gosto de falar da draga da Cristiana, mas de vez em quando preciso policiar a minha.

Falando nela, também escolheu esse momento para surgir na sala, e também teve a atenção imediatamente furtada para a nossa bancada de sobremesas. A Cristiana, quero dizer, não a draga. Ou talvez, as duas.

_Hum… Ivan, essa coisa dá água na boca só de olhar – disse Cristiana, hesitando em chegar perto. O dia certamente não precisava de mais acidentes. – Garoto, peça-me quantas xícaras de açúcar quiser, que um dia vou te pedir em casamento.

_Deixa o Pedrão ouvir isso! – comentei, dando uma risadinha.

_Tenho certeza de que ele nunca vai ter ciúme dessas sobremesas – disse Cristiana, ainda concentrada nas delícias sobre a bancada.

_Tem mais alguém aqui? – perguntei, ainda pensando no presente a mais que vira ao pé da árvore de natal, muito mais modesta que a do Seu Nosferatu.

Ouvimos a campainha.

_Agora tem – disse Ivan, enquanto Valentina abria a porta.

_Oi, linda! – disse Leandro, parado na porta, com o presente do amigo secreto escondido atrás do batente da porta. – Você me quer embrulhado ou eu posso começar a me livrar de toda essa produção?

Na verdade, ele não estava tão produzido assim, mas ele sempre se veste como se estivesse indo a um encontro, mesmo que só esteja indo à padaria.

_Você não tem uma cantada pior, não, Casanova? – indagou Valentina, segurando a risada.

Na verdade, ele tinha, mas não ia gastar por aqui.

_Não diga que não teve sua chance – ele disse, dando um passo para dentro do apartamento, e segurando o rosto dela com delicadeza antes de lhe dar um beijo na bochecha.

_Você… – ele disse, apontando para Cristiana. – Está linda! Mas eu não quero apanhar do seu namorado. – Então apontou para mim. – Você, me aguarde à meia-noite!

_Do namorado dela você não tem medo de apanhar? – perguntou Cristiana. Então, a compreensão a atingiu. – Oh…

Ela me deu aquele olhar “te peguei” de novo, enquanto Leandro me envolvia num abraço demasiadamente caloroso. Mas ela estava redondamente enganada.

_A Manu não tem namorado… – ele começou a dizer. Subitamente, porém, se afastou, me lançando um olhar avaliativo. – Você tem?

_Não sei do que vocês estão falando – esquivei-me.

_Até o fim da noite, pode apostar que eu vou descobrir – disse Cristiana. Ou melhor, repetiu Cristiana.

_O único cara que ela vai beijar hoje sou eu – garantiu Leandro, me abraçando de novo, dessa vez mais apertado, estalando um monte de beijos no meu rosto. Na base da minha orelha, para ser mais precisa.

_Ai, tem uma coisa me fazendo cócegas – estrilei, gargalhando e tentando me libertar dele. Uma coisa pequena e meio úmida se projetava sobre mim, quase se enfiando pelo meu decote, e eu o agarrei antes que conseguisse me deixar pelada.

_Oh, seu tarado! – rosnou Leandro – Dá para respeitar a moça!?

_Olha quem fala! – comentei, com sarcasmo, segurando com as duas mãos um cachorro chihuahua minúsculo, que Leandro carregava no bolso da camisa, e que, apesar daquele tamanho mínimo, não era mais um filhote. E que, naquela noite estava particularmente engraçadinho com um gorrinho vermelho de Papai Noel atochado na cabecinha.

_Pega ele, Piripaque! – atiçou Cristiana, de brincadeira.

Eu já estava sentindo as duas patinhas batendo no meu tornozelo, cada vez que Piripaque pulava, tentando alcançar o amiguinho.

Se tivesse a intenção, o Piripaque comeria o Picolé de uma bocada só, de tão pequeno que era.

Ok, o cãozinho do Leandro não era tão, tão, tãããão pequeno assim. Ele só era uns quatro centímetros menorzinho que o Piripaque. Mas quatro centímetros na vida de um chihuahua é mais ou menos a diferença entre Ana Hickmann e a Sandy! Ou entre um jogador de basquete e um piloto de Fórmula 1.

Assim que o coloquei no chão, Piripaque se ocupou em tentar arrancar o gorrinho da cabeça do Picolé.

_Não, não! – repreendeu Cristiana.

Curiosamente, era só ela dizer essas duas palavrinhas para fazer o Piripaque sossegar. E por alguma razão, só funcionava com ela.

Os dois saíram correndo pelo apartamento, e foram brincar debaixo da mesinha de centro.

_Falta um pedaço desse cachorro – zombou Ivan. – Não é possível ser tão pequenininho.

_É um bonsai de chihuahua – disse Leandro. – Só não me pergunte como é que faz.

_Ah, pode ficar sossegado. Se um dia eu tiver essa curiosidade, vou perguntar para eles! – disse Ivan, apontando para os cachorrinhos correndo atrás do rabo um do outro debaixo da mesinha.

A campainha tocou outra vez. Desta vez era o Serginho com sua acompanhante, que, nem de longe era quem esperávamos que viesse com ele. Graças a Deus!

Esperávamos que ele trouxesse a Amanda, sua namorada há três meses, uma fulana com cara e porte de modelo, loura platinada, olhos verdes, magérrima, pernas longas, com o nariz mais empinado do mundo, e esnobe até não poder mais, que é capaz de passar uma semana inteira só com uma folha de alface e uma garrafa de sidra no estômago. Em vez disso, ele trouxe a Vick, nossa amiga do teatro, que é quase tão alta quanto a Amanda, só que bem mais encorpada – para não dizer cheinha –, tem olhos castanhos, o cabelo mais vermelho e berrante que você verá na sua vida, zero juízo na cabeça, e que é especialista em contagiar todo mundo com sua empolgação.

Cristiana, Valentina e eu trocamos um olhar quase telepático: aquele devia ser nosso primeiro presente de natal da noite, e uma evidência de que talvez – e apenas talvez –, o azar que nos atingiu durante a tarde já tivesse tomado outro rumo.

_Vick! – exclamei, animada, abraçando-a.

_Ué… – balbuciou Leandro para Serginho. – Trocou de patroa?

_Mais ou menos – respondeu ele, meio aborrecido.

_Cadê a Amanda, cara? – insistiu Leandro.

_Deve estar me encomendando um par de chifres de presente de natal.

Sim, tem que ser muito autoconfiante para admitir uma coisa dessas. Autoconfiança e capacidade de superação e de nunca se deixar abater são as qualidades que mais admiramos no Serginho. A outra é sua imensa habilidade de arranjar qualquer coisa que a gente necessite por um precinho bem camarada. Quase sempre dentro do próprio apartamento; o que explica seu apelido “ranja tudo”: ele realmente arranja de um tudo!

_Que chato, hein, cara – disse Ivan, solidário.

Serginho deu de ombros.

_Azar o dela – acrescentou. – Se era para vir e ficar fazendo cara feia, também, foi melhor ela não ter vindo. Vamos nos divertir mais sem ela.

Mulheres mordendo a língua para não disparar um “com certeza”.

_E divertir a galera é precisamente a especialidade da Vickzinha aqui – disse Vick, apoiando as mãos nos ombros de Serginho, que deu um sorriso meio de lado.

_Pois é. Aí eu encontrei a Vick, e como a gente planejava encher a cara e fazer arruaça por aí, para dar um pouco de dor de cabeça pra Dona Lourdes, achamos melhor vir fazer a bagunça com vocês e dar um siricutico na síndica mais tarde.

_Fizeram muito bem, aliás! – disse Cristiana.

_Você não ia para Petrópolis com a sua família? – perguntou Valentina, lembrando-se de que fora esse o motivo porque Vick recusou participar do nosso amigo secreto quando a convidamos.

_Pois é… – disse Vick. – Mas, sabe como eles são caretas, né… Com certeza ia ser mais uma daquelas viagens chatas, em que eles iam ficar regulando cada copo que eu bebo, cada palavra que eu falo, cada telefonema que eu recebo… Um saco! E eu não ia poder levar ninguém comigo. E ficar aturando meus primos chatos o fim de semana inteiro é dose! Daí eu decidi dar minha ausência a eles como presente de natal, e passar com os meus amigos. Vou me divertir bem mais sem eles, e eles com certeza também não vão sentir a minha falta.

O discurso até pode parecer meio exagerado, mas eu conheci os pais da Vick recentemente, e a foto deles acompanha a definição de careta no dicionário. O senhor de terno e a senhora de tailleur, sempre impecáveis, com cara de constipação, que não suportam um assobio de qualquer música que não seja clássica, com mania de números – os dois são contadores, e não conseguem servir um cafezinho sem informar à pessoa sobre o valor exato da quantidade de pó, água e açúcar utilizada para prepará-lo. Pensei por um momento que eles tinham dado essa informação para que nós pagássemos, mas Vick explicou que não; que eles faziam isso para memorizar os gastos diários da família e depois anotá-los no livro de contas. Sim, eles tinham um livro de contas familiar. E faziam um balanço mês a mês, e organizavam um grande gráfico anual onde apontavam quais os meses em que mais gastaram e os que mais economizaram, saldos e déficits das contas bancárias e aplicações, a porcentagem que seria destinada para cada gasto adicional como viagem de natal e de férias, e o escambau. Só de lembrar já me dá sono. Ah, é… E também tinha o fato de que eles queriam um relatório completo de cada telefonema que a Vick recebia na frente deles, porque, supostamente, eles precisavam saber exatamente onde e com quem ela andava, para evitar que se tornasse mais uma jovem nas trágicas estatísticas da sociedade. Sério, acho que no lugar da Vick, eu teria fugido de casa há muito tempo. Nunca mais chamei minha mãe de controladora depois disso.

Claro que a Vick não mora mais com os pais – ou já teria enlouquecido há muito tempo –, e talvez por isso mesmo ela tenha preferido ficar para trás com os “rejeitados” do que encarar um fim de semana com sua família agridoce em Petrópolis. A Vick é aquela ovelha negra, que destoa de todo o resto da família. Para a nossa alegria! E azar o deles.

_E já que a Amanda não vem – prosseguiu Vick – eu fico com o amigo secreto dela. Quer dizer, eu dou o presente do amigo secreto dela. E quem tirou a Amanda, agora, vai dar o presente dela para mim. Falando nisso, eu trouxe rabanada e duas garrafas de vinho.

_A gente achando que ia comer a rabanada da Amanda hoje… – brincou Leandro.

_Olha o respeito! – rosnou Serginho. – Enquanto eu não chutar a bunda dela pessoalmente, só eu posso falar da rabanada daquela vaca!

_Tá legal.

Serginho colocou uma caixa de papelão com sua contribuição para a ceia em cima da bancada, e pôs os presentes debaixo da árvore de natal.

_A Amanda te falou quem ela tirou? – perguntei à Vick.

_Não falou nem pro Serginho.

_Na verdade, eu não me liguei de perguntar, antes de mandar ela à merda pelo telefone – admitiu Serginho.

_Então, eu comprei um presente unissex, e vou ficar por último – disse Vick. – Quem sobrar, é quem a Amanda tirou.

_Tranquilo! – disse Ivan.

_O que será um presente unissex? – Leandro parecia estar pensando alto.

_Vocês vão ver – disse Vick. – E provavelmente vão gostar. Trouxe até um champanhe – e exibiu a garrafa. – Do bom! Não aquele vinagre com sal de fruta que certas pessoas… – Indicou Leandro com a cabeça. Ele deu uma risada sarcástica. – Tentam convencer a gente de que é champanhe… Vou colocar na geladeira, para a gente abrir à meia noite, porque, afinal, é natal, mas é meu aniversário, também. E eu quero comemorar!

_Opa! – animou-se Leandro. – Todo mundo puxando a orelha da Vick à meia-noite, hein! Que é para dar sorte.

_Agora, vem cá… – disse Serginho, mudando de assunto. – Que foi que aconteceu com o peru? O Pedrão passou lá em casa, perguntando se eu sabia onde ele podia conseguir um peru, de preferência assado, hoje…

_Ué, gente… – disse Leandro, com o cenho franzido. – O que aconteceu com o peru que eu trouxe?

_Quer a versão completa ou serve o resumo? – indagou Cristiana.

_Serve o resumo. – Porque ele sabe que a versão completa pode demorar dias para ser contada.

_Ele foi dar uma voltinha – disse Cristiana, com um sorriso amarelo.

_O quê?! – surpreendeu-se Ivan. – Foi o peru de vocês que caiu na cabeça da Dona Cida?

_Era a Dona Cida lá embaixo? – indagou Cristiana, afinando a voz ao nível de um desenho animado, tentando segurar a risada.

_Embaixo do peru de natal? Era.

_Alguém vai me contar de que papagaios estão falando? – insistiu Leandro, cruzando os braços, com uma expressão meio divertida, meio preocupada.

_Não é papagaio, é peru – disse Ivan. – Mais especificamente o peru que despencou da janela de um dos apartamentos para servir de capacete à Dona Cida. Isso, ou ela estava fazendo Papa Nicolau no bicho com a cabeça…

_Você foi lá embaixo, ou escutou a gritaria pela janela? – indagou Cristiana.

_Escutei a gritaria, e depois o Severino Mosca-Morta me contou o acontecido, quando foi devolver meu gel de cabelo.

Não falei que as fofocas correm nesse prédio? Mais velozes que o Lewis Hamilton. Mais velozes até que a velocidade cinco do Créu.

_Por que o Severino Mosca-Morta pegou seu gel emprestado? – perguntou Valentina.

_Para fixar um galho da árvore de natal da portaria que insistia em ficar caído.

A propósito, Severino Mosca-Morta é o zelador do prédio. Já deu para perceber que a gente gosta de dar uns apelidinhos para as pessoas, né?

_Com gel de cabelo? – estranhou Cristiana. – O laquê da Dona Lourdes já tinha acabado?

_Sei lá.

_O que o peru estava fazendo na janela? – insistiu Leandro.

_Longa história, querido – desconversou Cristiana.

_A história longa é que alguém olhou pela varanda e disse “vou encaixar esse peru na cabeça duma velha…” – brincou Serginho. – Daí mirou na Dona Cida, e deu no que deu.

_Engraçadinho! – reclamou Cristiana, levando na esportiva. – Mas não esquenta, não, porque o Pedrão foi comprar outro.

_E onde é que ele vai achar um peru assado hoje?

_Tu não conhece meu namorado. Aquilo ali é capaz de dar nó em pingo d’água! Daqui a pouco ele chega com um peru novo em folha.

_Só espero que não seja o mesmo que andou furunfando na peruca da Dona Cida – comentou Serginho, dando uma risadinha debochada.

_Ele é doido, mas nem tanto – garantiu Cristiana. Ouvimos a campainha. – Aí! Deve ser ele.

Mas não era.

Vicente, o último convidado que faltava, surgiu à nossa porta, com seu visual hippie de sempre – uma camiseta vermelha folgada, calça preta de brim, all star também preto, e aquela barba por fazer que, somada ao cabelo comprido, até os ombros, o fazia parecer um ator prestes a interpretar Jesus Cristo no natal. Ou o Ashton Kutcher, em sua primeira temporada em Two And a Half Men.

Ele é um universitário sem-teto que mora no casarão do nosso teatro – mas a diretoria não pode nem desconfiar disso! –, e vive fazendo um verdadeiro malabarismo para  manter sua presença escondida ali dentro. O que inclui fingir ser um fantasma.

Estava carregado de sacolas – duas de supermercado, sem dúvida pesadas, nas mãos, e uma de papel presa entre os dentes, provavelmente com o presente do amigo secreto –, e equilibrava um vasinho de madeira com um belo arranjo de poinsétia vermelha – também conhecida como flor-do-natal – num dos braços meio erguido, apertando o vasinho junto ao peito. Assim que passou pela porta, abandonou as sacolas perto do sofá, segurou o vaso com as duas mãos, se ajoelhou diante de mim, e começou a recitar um trecho de Don Juan Tenório – o mesmo que o Professor Girafales recitou para a Dona Florinda num dos episódios do Chaves:

_ “Oh! Sim, belíssima Inês! Espelho e luz de meus olhos; escutar-me sem zanga, como fazes, amor: olha aqui a teus pés, pois, todo o altivo rigor deste coração traidor que se render não cria, adorando, vida minha, a escravidão de teu amor”.

Tive que rir, principalmente da cara que a Cristiana fez: de novo aquele olhar “te peguei”, anunciando a descoberta do meu suposto namorado misterioso. E, de novo, ela estava enganada. Mas como eu nunca fujo de uma boa polêmica, decidi dar sequência na cena:

_ “Cala-te, por Deus, Don Juan! Que não poderei resistir muito tempo sem morrer, tão nunca sentido afã”.

Aquela era uma boa cena para exercícios de atuação nos ensaios. E Don Juan Tenório era uma peça que encenávamos pelo menos uma vez por ano desde o nascimento do grupo Máscaras. Nosso grupo tinha certo apego sentimental por essa peça, principalmente porque o nosso casarão-teatro é assombrado pelo fantasma do Don Juan Tenório, mas essa é uma outra história.

Vicente se levantou, enquanto trocávamos risadinhas cheias de cumplicidade, e me entregou as flores.

Cristiana pigarreou, ainda com aquele olhar astucioso no rosto.

_As flores são para as duas, na verdade – explicou Vicente –, mas eu não quero apanhar do Falabella. Falando nisso, cadê ele?

Falando assim, parece até que ele é super ciumento, quando, na verdade, ele é bem relax.

_Foi atrás do peru – respondeu Cristiana. E, ao ver o cenho de Vicente franzir, com a boca entortando numa risadinha debochada, acrescentou: – De natal!

Vicente pareceu confuso, por um momento. Em seguida lançou um olhar que claramente dizia “melhor eu nem perguntar”, e se abaixou para retirar os refrigerantes das sacolas.

_Ah, eu também trouxe… – disse ele, retirando parte do conteúdo da sacola de papel. – Brinquedinhos! – E exibiu duas coxinhas de peru de borracha, daquelas que apitam quando a gente aperta, encarando os dois cachorrinhos, que agora corriam e pulavam ao redor dele. – Trouxe uma pro Piripaque e uma pro Picolé, que é para não dar briga.

E desembalou-as, dando uma para cada um. Os dois pequeninos agarraram os brinquedinhos e começaram a mordê-los, animados, fazendo os apitos ecoarem pela sala.

_Mais fáceis de agradar do que crianças – comentou Ivan, observando a alegria dos cãezinhos.

_Não tenha dúvida disso – concordou Cristiana. – Um brinquedo para cachorro: no máximo cinco conto na loja de 1,99. Presente de natal para uma criança parar de fazer birra hoje em dia: 200 reais num Tablet ou quinhentos num PlayStation! É por isso que eu amo o Piripaque.

_Entra aí, gente – convidou Pedrão, entrando subitamente no apartamento, seguido pela Dona Lourdes e pelo Seu Ezequiel, mais ou menos a tempo de ouvir a declaração de amor de sua namorada pelo cachorro. E o mais importante, carregando uma travessa com um belíssimo peru assado, douradinho e suculento.

_Boa noite – cumprimentou Seu Ezequiel, com uma garrafa de vinho na mão.

Havia um ponto de interrogação na cara do Ivan e do Serginho, mas eu compreendi o que estava acontecendo assim que bati os olhos no peru assado: uma vez que tinha sido aberta a temporada de caça ao peru de última hora, e o Serginho não conseguiu arranjar, o Pedrão não achou onde comprar, e, conhecendo-o como eu conheço, deve ter se sentido pessoalmente responsável pela perda do bicho – que descanse em paz, de preferência longe do cabelo ensebado da Dona Cida –, Pedrão deve ter apelado para convidar qualquer pessoa que tivesse um peru assado grande o suficiente para nove pessoas. Bem, onze, agora.

Pedrão lançou a todos um olhar que dizia claramente “não perguntem”.

Nem precisávamos.

_Uau! Já chegou todo mundo… – comentou Pedrão, para quebrar aquele silêncio tenso que se instaurou com a chegada dos dois “adultos” no recinto.

_A gente só estava esperando vocês – respondi.

_Melhor a gente atacar a comida primeiro, e fazer o amigo secreto depois, né, gente? – propôs Cristiana. – Senão o rango vai esfriar.

Todos concordamos, e começamos a distribuir os pratos, que tínhamos deixado empilhados na mesa da cozinha. Ainda bem que tínhamos separado doze pratos, em vez de nove contadinhos, assim ficou parecendo que receber a Dona Lourdes e o Seu Ezequiel já estava nos planos desde o princípio.

_Trégua? – propus à síndica, entregando-lhe um prato.

Ela assentiu, mas parecia em dúvida. Abracei-a pelos ombros para demonstrar que não havia ressentimentos. Tudo bem que tínhamos vinte e cinco discussões mensais – no mínimo! –, e que nós a chamávamos de bruxa ou de velha coroca, ou de coisa ruim quando ela não estava olhando, e que ela também adorava implicar com o pessoal do nosso andar – dos nossos andares, na verdade, já que havia moradores de dois andares na casa –, mas nada disso tem importância de verdade. É natal, e nessa época do ano, temos que deixar essas picuinhas de lado, e conviver como o que praticamente somos: uma família. Meio esquisita e completamente disfuncional, mas uma família mesmo assim.

_Dá alguma coisa aí preu comer – pediu Serginho, pegando um prato da pilha.

_Toma aqui um garfo – disse Pedrão, entregando o utensílio.

_Ra-rá! – debochou Serginho. – Oba! Purê de batata!

_Nunca vi alguém ficar tão animado com purê… – sibilou Valentina, rindo.

_Amor, natal sem peru e purê de batata não é natal – disse Serginho. Pareceu refletir em seguida, mergulhando outra vez a concha na tigela de purê. – Pensando melhor, pode até faltar o peru, mas não o purê.

_Entendi. Você é maluco por purê.

_Isso aí.

_Olha só… – Vick chamou atenção de todos. – Nada de briga pelas coxas do peru, hein, gente! Vamos respeitar.

_Bem, uma delas, por direito, é da Dona Lourdes – avisou Pedrão.

_Ah, não se preocupe, filho, eu só gosto do peito do peru – disse a síndica.

_Uma é minha! – determinou Leandro, lançando um olhar significativo para Pedrão, que já estava com a faca na mão para fatiar o bicho.

Ninguém contestou. Afinal de contas, ele pagou pela ave que caiu pela janela.

_Quem quiser a outra, então, vamos disputar na porrinha – propôs Pedrão.

_Hum… Cristiana, sua sopa está com um cheirinho maravilhoso – comentou Vick servindo-se de algumas conchas.

Ela acabou sendo a única a começar pela sopa. Todo mundo estava preocupado em disputar algum pedaço favorito do peru, antes que outra pessoa o agarrasse. Peguei uma faca e me preparei para enterrar na primeira pessoa que olhasse para a minha asa.

Brincadeirinha! Claro que eu não ia esfaquear ninguém. Mas tirar a asa do prato de quem a agarrasse primeiro passou pela minha cabeça.

_Nunca vi molho de macarrão dessa cor – comentou Ivan, observando a cobertura meio rosada, meio alaranjada do molho. – Quem foi que fez?

_É o meu molho especial supersecreto – disse Pedrão.

Que todo mundo sabe que é feito com tomate, maionese, alho, páprica e salsa. Azeitonas a gosto. Mas vocês não souberam disso por mim!

_Molho especial supersecreto? – disse Serginho, com deboche. – Vai ter coragem de provar essa gororoba, Ivan? Quem fez foi o Falabella…

_Ih… Tá me tirando, rapá?! Pro seu governo, meu macarrão é uma delícia! – declarou Pedrão, cheio de moral. – Sempre que não vira cola…

_A fábrica do Superbonder continua ligando, atrás da receita – acrescentou Cristiana, dando uma risadinha.

_Não é tão grudento assim, vai… – defendeu-se Pedrão.

_Não, imagina… Se jogar o prato pra cima, ele gruda no teto – disse Cristiana. – Nem com picareta você consegue desgrudar de lá. Tem razão, não é Superbonder, é cimento industrial, o negócio!

_Tá, mas quando eu acerto o ponto, como hoje, não tem macarrão melhor.

_Isso é verdade! – concordei, me apropriando da minha asa de peru.

Fiquei até surpresa por descobrir que só o Pedrão e o Seu Ezequiel estavam interessados na outra coxa. Acabou que a disputa foi no par ou ímpar – para poupar tempo –; o Pedrão ganhou, mas com todo espírito natalino, acabou cedendo-a ao porteiro.

_Feliz natal, Seu Ezequiel – disse Pedrão, com um sorriso simpático.

_Obrigado, rapaz! – disse o porteiro, feliz como uma criança por ter ficado com seu pedaço favorito da ave.

Cristiana deu um sorriso bastante impressionado para o namorado. Havia grande orgulho explícito nele, também.

_Hum… – murmurou Valentina, deliciada, dando uma garfada no macarrão. – Seu cimento-cola está uma delícia, Pedrão. Depois vou querer a receita do molho.

Pedrão lançou ao Serginho um olhar que dizia “tome, cego”, e sussurrou os ingredientes ao ouvido de Valentina, enquanto ela anotava no celular.

_Espera aí… – sibilou Valentina, digitando o mais rápido que conseguia. – Azeitona é com “s” ou com “z”?

_É com caroço, amiga – respondeu Cristiana.

_Não é, não – disse Pedrão. – Essa é fatiada.

_Tudo bem eu ter convidado a Dona Lourdes? – sussurrou Pedrão, pertinho do ouvido de Cristiana, quando todos estavam distraídos em alguma conversa, espalhados pela sala do apartamento. Nossa cozinha também era pequena demais para acomodar tanta gente.

_Claro – disse Cristiana.

_Quando eu estava entrando de novo no prédio, ouvi o Seu Ezequiel comentando com o Severino que a Dona Lourdes ia passar o natal sozinha, e o tinha convidado para a ceia, já que a família dele também mora longe. Daí eu resolvi convidar os dois. Sei lá, é horrível ficar sozinho nessa época do ano.

_Pior que é – concordou Cristiana. – A gente até comentou isso hoje à tarde, não foi Manu?

Assenti. Leandro e eu estávamos falando sobre a nova comédia que vamos começar a ensaiar depois do ano novo, mas ouvimos um pedaço da conversa.

_A mim também não incomoda em nada a presença dos dois – acrescentei. – É até provável que a gente se divirta mais. Seu Ezequiel sóbrio já é meio engraçado; imagine depois de algumas taças de vinho.

Não que estivéssemos usando taças; é mais força de expressão.

Sem falar que o peru estava uma delícia. Dona Lourdes podia até ser uma velha cricri, mas a danada sabia cozinhar. Cheguei a dizer isso a ela enquanto comíamos. Não com essas palavras, é claro.

_O segredo está no conhaque e no alho – ela me disse, orgulhosa.

Ela sempre foi meio durona, mas dava para ver que estava feliz por ter tanta gente em volta dela naquela noite. Ficou engajada numa conversa com a Vick e com o Vicente, sobre algo que devia ser muito engraçado, porque a Vick gargalhava a toda hora.

Seu Ezequiel também parecia enturmado, conversando com o Ivan, se eu entendi bem do outro lado da sala, sobre a irmã do Ivan, que costumava vir passar o natal com ele todos os anos, exceto este.

_A minha irmã está no céu – disse Ivan, quando o porteiro perguntou por que ela não veio.

_Ah… – sibilou Seu Ezequiel. – Sinto muito. Não sabia que ela tinha morrido. Ela era tão jovem, e parecia tão cheia de vida.

_Não… – explicou Ivan, dando uma risada meio supersticiosa para espantar o comentário. – Ela está num avião. É aeromoça. Tinha um voo marcado para Natal hoje, curiosamente.

_Ah! – exclamou o porteiro. E também riu, desculpando-se pelo mal-entendido. E virou o copo de vinho na boca, talvez para disfarçar o rubor.

Nesse momento, o interfone tocou.

_Ué…? – Franzi o cenho.

_Estava faltando alguém? – perguntou Valentina, enquanto Pedrão se levantava para atender.

_Não – respondeu ele, caminhando até o interfone. – É o peru.

_O Severino ficou na portaria, para eu poder jantar – explicou Seu Ezequiel. É só pedir para ele liberar a entrada do entregador.

_Outro peru? – indagou Vicente, confuso.

_Sim, sim! Pode mandar subir, Severino – disse Pedrão, ao interfone. – Valeu.

O entregador apareceu na nossa porta um minuto depois, e Pedrão foi abrir a embalagem de plástico na mesa da cozinha.

_Alguém quer uma coxa? – perguntou, já enfiando a faca no bicho.

_Eu quero! – disse Vicente, avançando em direção à cozinha.

_Vai mais uma asa aí, Manu? – ofereceu Pedrão, em seguida.

_Valeu. Estou satisfeita. Com o peru – acrescentei. – Ainda tenho espaço para as outras coisas.

_Nem desconfiava disso – alfinetou Cristiana, com sarcasmo. Ela sabe que eu não resisto a uma boa sobremesa.

_Bem, quem quiser mais algum pedaço, o peru está na mesa – disse Pedrão, retornando à sala com uma coxa bem carnuda na mão.

Devia ter desconfiado que seu desapego em ceder a coxa do peru da Dona Lourdes ao porteiro não era só amor no coração…

_Você comprou outro peru? – indagou Cristiana, surpresa, quando ele se aproximou.

_Estavam terminando de assar quando passei naquela padaria lá perto da caixa d’água – explicou Pedrão, acomodando-se de volta ao lado dela no tapete. – Eu deixei pago e dei o endereço para entregar.

_Achei que… – ela se interrompeu, e deu outro sorriso cheio de orgulho para ele.

Afinal, não foi por causa do peru que ele convidou a Dona Lourdes e o Seu Ezequiel. Sim, ele tem um grande coração. Só não se aplica diretamente às coxas do peru.

_Vou pegar mais sopa – avisou Vick, pouco tempo depois, dirigindo-se à cozinha com o prato dela e o de Valentina na mão.

_Também quero – eu disse, me levantando.

Vicente e eu disputamos o espaço para entrar na cozinha, como costumávamos fazer sempre que passávamos por alguma porta estreita. Não precisava ter olhos na nuca para sentir o olhar desconfiado de Cristiana sobre nós. Ela ainda estava pensando que o Vicente havia me mandado o ursinho e os bombons de manhã. Estava errada. Mas se era para deixá-la pensar que meu suposto namorado misterioso estava na nossa sala, então que fosse alguém parecido com o filho de Deus.

Vick entregou o prato de Valentina na bancada, e voltou para a mesa, para misturar um pedaço de batata assada na sopa em seu prato. Foi só ao chegar à sala que Valentina percebeu que estava comendo sopa com o garfo.

_Cabeça… – murmurou, retornando à bancada, enquanto fazíamos fila para chegar à panela. – Alguém aí me dá um garfo para comer a colher?

Houve silêncio por um segundo dentro do apartamento, e depois algumas risadas tímidas, mal abafadas, misturadas a olhares confusos.

_Ela pediu um garfo para comer a colher? – indagou Ivan, parando com a garrafa de vinho a três centímetros da borda do copo. Parecia estar decidindo se as pessoas naquele apartamento já não tinham consumido álcool o suficiente.

_Jesus, Maria, José! – exclamou Serginho. – Como é que é isso? Comer colher com garfo…? Você é faquir, Valentina?

_É… – balbuciou ela, sem graça. – Sopa. – E também não aguentou, e começou a rir. – Eu quis dizer uma colher para comer sopa.

_Tenso! – disse Leandro, levando o copo de vinho aos lábios, mas esperando um momento para beber. – Vamos retirar as bananas da casa…

_Por que a culpa é sempre da banana, hein? – perguntou Vick, tentando não rir… muito… na frente da Valentina.

_Elementar, minha cara – respondi. – Tá lá no Aurélio: comer banana é o ato ou efeito de alimentar o Tico e sequelar o Teco!

_É como eu sempre digo: não dê bananas aos doidos! – acrescentou Leandro, entornando o copo de vinho em seguida. – Desculpa aí, Valentina.

_Eu mereço… – murmurou ela, com espírito esportivo. Mas deu um tapa um pouco mais forte do que o normal na parte de trás da cabeça dele ao passar.

Leandro riu. Desconfio que ele estava começando a ficar bêbado. E mal estávamos na terceira garrafa ainda. Para onze pessoas, nada de mais…. Deduzi que ele já devia ter bebido alguma coisa antes de vir para cá.

Começamos a atacar as sobremesas quase em seguida: a rosca de nozes da Valentina – que era muito mais leve e fofinha do que parecia –, as rabanadas da Vick, o pavê de pão de mel com cobertura de glacê de nozes e frutas vermelhas do Ivan…

Aliás, nota mental: arrancar o armário da vida desse moleque e casar com ele! Ou ganhar a Mega-Sena da Virada para contratá-lo como meu confeiteiro particular; o que for mais fácil.

E por último, o sorvetone em formato de boneco de neve do Serginho. Que também estava uma delícia, mas sabemos que não era receita dele, nem da mãe dele, nem da avó dele. Era receita da Teodora. Da Padaria Teodora!

Estava tudo muito bom, tudo muito bem, mas exatamente nesse momento, enquanto experimentávamos todas aquelas delícias que certamente nos fariam lutar com a balança e visitar o dentista muito em breve, como se já não tivesse acontecido absurdos demais nesse natal… Acabou a luz.

_Como assim, gente? – estrilou Serginho, depois que todos demos gritinhos e vaias para a escuridão e acendemos as lanternas dos celulares. – Acabar a luz em plena véspera de natal? Que tipo de birosca é essa que a gente tá alugando? E aí, Dona Lourdes? Vamos tomar alguma providência?

_Eu vou lá dar uma olhada na caixa de força – disse Seu Ezequiel, acendendo também a lanterna do celular, e dirigindo-se à porta.

_Bem que agente podia aproveitar esse escurinho para contar umas histórias de terror… – sugeriu Vick, fazendo uma voz sinistra ao final da frase, iluminando o próprio rosto de cima para baixo com a lanterna do celular.

_Era uma vez um Papai Noel sinistro que apagava as luzes dos prédios na véspera de natal, só se for – disse Ivan, aparentemente servindo mais vinho em seu copo. Também podia ser refrigerante, não dava para enxergar direito naquela escuridão.

Um telefone tocou perto de mim. Percebi pela música de boate que era o do Leandro.

_Alô? Oi. Está sim, mas olha só, ele já tá mais ou menos na oitava cerveja, não tá falando lé com cré; você tá falando Jesus, ele tá entendendo Genésio. Tem certeza que você quer falar com ele assim mesmo? Acho que é melhor você ligar depois; tipo amanhã, depois que a ressaca passar. Falou, eu aviso. Abraço… Tchau, tchau.

_Queriam falar com quem? – perguntou Vicky, curiosa. Por incrível que pareça, não tinha ninguém bêbado. Ainda…

_Sei lá… Com um tal de Guto. Conheço não.

_E porque inventou essa história toda? – perguntei.

_Só pro cara não perder a viagem.

_Bom, o cara com certeza não deve estar pensando boa coisa do tal Guto, agora – disse Valentina.

_Bobagem! – bufou Leandro. – Todo mundo bebe um pouquinho a mais na véspera de natal.

A luz voltou logo em seguida e todos aplaudimos a eficiência do Seu Ezequiel quando ele retornou ao apartamento.

_Gostei de ver a agilidade – disse Ivan. – Está merecendo um aumento de salário, não é, não, Dona Lourdes?

_Claro, é só aumentar um pouquinho o valor do condomínio – respondeu a síndica.

_Foi mal, Seu Ezequiel. Tentei. O que aconteceu?

_Foi só um probleminha de gato – respondeu o porteiro.

_Quem foi que puxou gato da caixa de força do condomínio? – perguntou Dona Lourdes, religando o modo carranca, doida para comer o rabo de alguém na vizinhança.

_Não… Foi o gato da Dona Dolores, aí da frente, que se enfiou na caixa de força, provavelmente caçando algum rato ou lagartixa, e saiu pisando nos disjuntores, desligando tudo. Apagou a luz de todos os apartamentos desse andar. Já religuei tudo.

Quando fui apagar a lanterna do celular, percebi que tinha uma mensagem não lida da Malu, avisando que encontraram o rabecão lá para os lados de Vila Nova Cachoeirinha. Felizmente, não mexeram nem no caixão do Seu Aristides, nem na urna com as cinzas do Seu Vigário. Porém, ninguém foi preso: Papai Noel e seus cúmplices continuam foragidos, à procura de um novo trenó menos bizarro para entregar os presentes esta noite.

_Acharam cedo, até – comentou Cristiana, quando contei a ela.

_Também pensei que só fossem encontrar lá para segunda-feira – acrescentei.

_O quê? – perguntou Pedrão, pegando o bonde andando.

_O carro da funerária do meu pai, que tinha disso roubado hoje cedo pelo Papai Noel.

Leandro estalou numa gargalhada.

_É sério! – acrescentei. Embora a história parecesse surreal, mesmo. E como todos os olhares se voltaram para nós, eu os atualizei sobre a vocação criminosa do pessoal do Polo Norte.

_Quê isso, gente? – estrilou Leandro. – Papai Noel virou trombadinha…?

_Se até o Bom Velhinho está chefiando uma quadrilha, é sinal de que o mundo está perdido mesmo… – comentou Ivan. – Daqui a pouco vão ter que instaurar a CPI do trenó…

_Agora você vê… – comentou Pedrão. – Antigamente Papai Noel se contentava com pratos de biscoitos e um copo de leite; hoje em dia, ele quer o pagamento em dólar e uma conta na Suíça!

_Desse jeito, até eu vou querer me candidatar a esse emprego – acrescentou Serginho.

_Mas, convenhamos, foram bandidos muito criativos, hein – riu-se Vick. – Ou com muito espírito natalino.

_Não dá mais pra confiar em ninguém, mesmo… – disse Valentina.

_Tá, gente, mas vamos parar de falar em coisa ruim, porque hoje é natal – atalhou Pedrão.

_Falando em coisa ruim, cadê a Dona Lourdes? – perguntou Cristiana, baixinho. E só então nos demos conta de que ela não estava na sala. E não vimos ninguém passar na direção do banheiro. – A velha virou fumaça?

_Ela disse que ia buscar alguma coisa lá no apartamento dela – informou Vick. – E o Seu Ezequiel foi lá render o Severino na portaria.

_Bem, é melhor a gente começar logo o amigo secreto, né? – sugeriu Leandro.

_Certo – disse Cristiana. – Quem quer começar?

_Vamos em ordem alfabética – sugeriu Serginho.

_Então, é com você Manu! – disse Cristiana.

_Nem vem – rosnei. Ninguém precisava me lembrar do nome que constava nos meus documentos em plena véspera de natal. – É com você, Cristiana!

_Tá, que seja – ela disse, e foi buscar seu presente embaixo da árvore, junto com os outros. – A pessoa que eu tirei…

_É um ser humano! – interrompeu Leandro.

_Sabe que eu estou em dúvida sobre isso – refletiu Cristiana. – Porque, veja bem… Ele é especialista em ficar escondido, não tem endereço fixo… Pelo menos, não um endereço oficial… Às vezes parece uma presença etérea, onipresente nos cantos mais recônditos do nosso teatro… E, reza a lenda que ele é o fantasma do maior libertino de todos os tempos… O que é um contraste e tanto com a aparência do homem mais santo que já pisou nesta Terra…

_Vicente! – gritamos em uníssono.

Ele se levantou para receber seu presente: um par de óculos de visão noturna.

_Agora você não vai mais tropeçar em qualquer bagulho largado pelo contrarregra no meio do caminho quando o Otávio ou a Rita resolverem aparecer no casarão de madrugada, e você tiver que se esconder deles no escuro.

Isso quase o delatou uma vez. Sorte que ele conhece cada passagenzinha do casarão, por menor que seja e por mais improvável que pareça permitir a passagem de um ser humano adulto, ser rápido, flexível e muito escorregadio.

_Opa! Valeu – disse ele, guardando o óculos de volta na sacola, antes de abrir o outro embrulho, o presente de grego: uma tesoura de cabeleireiro.

Um ponto de interrogação surgiu em seu rosto ao erguer a tesoura.

_Passou da hora de cortar esse cabelo, hein, Ashton Kutcher – explicou Cristiana.

_O que vocês acham, meninas? – perguntou ele, jogando a decisão para a galera.

Vick e eu fizemos o coro do não. Valentina não opinou.

_A voz do povo é a voz de meu Pai – decidiu Vicente, com um tom de voz reverente, guardando a tesoura.

Cristiana revirou os olhos, dando uma risadinha e foi se sentar ao lado do namorado.

Vicente também pegou seu presente embaixo da árvore de natal, e começou a nos dar dicas:

_Eu tirei uma pessoa incrível, linda… – Nessa parte, Ivan se levantou envaidecido, só para deixar o Vicente sem graça, e fazê-lo acrescentar depressa: – Mulher! – Ivan se sentou novamente, fingindo desapontamento. – Mas eu não me atrevo a pronunciar o nome dela assim tão perto das facas da cozinha, porque eu temo pela minha integridade física…

_Manu! – gritaram todos em uníssono, de novo.

E eu me levantei. Felizmente não passou pela cabeça de ninguém pronunciar a palavra com “A” (meu nome), senão eu teria mesmo que recorrer ao nosso maravilhoso faqueiro com dez peças super afiadas.

Dona Lourdes retornou ao apartamento bem nesse instante, enquanto eu abraçava o Vicente, trazendo o que parecia ser uma travessa de lindos cupcakes caseiros. E sentou silenciosamente no lugar que Vick tinha guardado para ela ao seu lado, no sofá.

Não consegui conter um gritinho eufórico ao abrir o meu presente: o novo DVD do Enrique Iglesias Belfest Live Concert! Enchi a capa de beijos na mesma hora. Todo mundo sabe que eu sou louca por esse mau caminho espanhol. Melhor do que isso, só se alguém conseguisse trazer o próprio, em carne e osso, para dentro do meu apartamento.

_Eis a pessoa que menos teve que pensar no que compraria para o amigo secreto – comentou Cristiana, apontando para o Vicente. – O nome do Enrique Iglesias praticamente se materializa por cima do nome da Emanuelly no papelzinho. A dúvida só pode ser entre o CD ou o DVD.

Mandei um beijinho no ombro para ela, ainda agarrada no meu novo mimo, e abri o presente grego: uma camiseta amarela. E não qualquer amarelo: gema de ovo! Nem a estampa com um cachorrinho extremamente engraçadinho conseguia tornar aquela cor menos hedionda.

_Jesus! – exclamei, tentando não torcer o nariz para aquela camiseta. Embora todo mundo saiba que eu odeio amarelo, e esse ser precisamente o motivo de ser o meu presente grego.

_Só não vale usar como pano de chão – disse Vicente, rindo da minha expressão.

_Mas fundo de gaveta tá valendo, né? – E ri também, guardando meus presentes de volta na sacola. Nada que um bom spray com tinta para tecido não resolva.

Em seguida apanhei o presente do meu amigo secreto e me recompus das últimas emoções para começar a dar minha dica.

_Vocês não têm ideia de como é difícil comprar presente para uma pessoa que aparentemente tem todas as coisas que já foram inventadas e fabricadas desde o início dos tempos dentro do próprio apartamento…

_Serginho! – Todos gritaram.

Meu presente não era muito criativo, mas algo que eu sabia que ele não tinha e que ele iria gostar: um box com os quatro filmes mais divertidos do Mel Brooks – O Jovem Frankenstein, Banzé No Oeste, S.O.S. Tem Um Louco Solto No Espaço e A Última Loucura de Mel Brooks. Serginho gosta de filmes antigos e cults, e é meio complicado, realmente, encontrar esses filmes em DVD, mesmo para quem está acostumado a desenterrar coisas impossíveis do fundo das galerias de São Paulo. Para conseguir aquele box eu tive que recorrer ao amigo de um amigo de um amigo que conhecia um cara que trabalhava numa loja de discos e filmes antigos, com precinhos até camaradas.

O presente de grego foi mais fácil de escolher: como ele é palmeirense roxo, dei a ele um lindo porquinho de pelúcia vestido com a camisa do Corinthians. Com um pouco de sorte, ainda poderia salvar uma alma do purgatório.

_A pessoa que eu tirei… – disse Serginho, após guardar seus presentes. Estava certa, ele gostou dos DVDs; e torceu o nariz para a camisa do Corinthians no porquinho. Chegou a dizer que ela entupiria sua privada mais tarde. Acho que o olhar zangado da Dona Lourdes quando ele mencionou o provável futuro problema nos encanamentos pode ser capaz de salvar a vida daquela camiseta tão preciosa. Mas é bem possível que ela passe a enfeitar o banheiro dele, de qualquer modo. – É famosa por ter algo em comum com certo escritor italiano do século dezoito…

_Casanova!

O mais interessante nos presentes do Serginho para o Leandro foi o presente de grego, que valia mais pelo recado que transmitia, e que ele fez questão de verbalizar ao entregá-lo:

_Segure o Tchan!

Sim, era um CD do É o Tchan! Antiquíssimo.

_Pirata!? – observou Leandro, erguendo uma sobrancelha acusadora.

_Onde? – indagou Serginho, olhando para os dois lados, fazendo-se de desentendido. –Não, não, não! Mídia digitalmente reproduzida, sem fins lucrativos.

_Sei… Diga isso à polícia e tente convencê-los – replicou Leandro, dando uma risada sarcástica.

_Tirem as bananas da casa quando a minha amiga secreta estiver por perto! – Foi a dica do Leandro.

E antes que pudéssemos abrir a boca, Valentina se levantou:

_Palhaço!

_É meio misturinha, mas é uma gatinha – acrescentou Leandro, abraçando-a, todo galante. Ou quase isso.

E o presente de grego que deu a ela foi precisamente uma banana de borracha que apita – como os brinquedinhos dos cachorros.

_Gente, que cisma vocês têm comigo e a banana… – reclamou Valentina, mas não estava brava de fato.

Isso é só porque ela vive confundindo as coisas que vai dizer, o que faz parecer que ela está constantemente sob a influência de alguma substância perigosa. Tipo a banana.

Sabemos, claro, que a Valentina não é burra – verdade seja dita, a menina sempre foi a melhor aluna da turma dela na escola, e dois anos consecutivos tirou notas acima de noventa no ENEM: 2007 e 2008. Então, claro que ela é uma garota inteligente. Mas vive trocando as bolas sempre que abre a boca; talvez por timidez, talvez por desatenção. Cinco minutos de conversa com a Valentina é sempre garantia de boas risadas.

_Meu amigo secreto… – ela disse, erguendo uma sacola de presentes púrpura cintilante. A própria sacola já parecia uma dica.

_Ivan! – Vick e eu não resistimos em gritar logo.

_Gente, deixa a menina terminar de dar a dica… – reclamou Ivan.

_E precisa?! – indagou Vick, apontando para a sacola com a cor favorita dele.

Ignoremos a camisa rosa e o DVD do Ricky Martin, porque é muito estereotipado. E vamos direto à dica do Ivan a respeito de seu amigo secreto:

_Eu tirei uma pessoa… Ela é magérrima, loira, toda gata… Mas passou por uma metamorfose hoje, apareceu aqui com o cabelo mega vermelho, um pouco mais baixa, um pouco mais cheinha, e infinitamente mais legal…

_E como quem foi namorar perdeu o lugar… – completou Vick. – Com todo o respeito, Serginho… Perdeu também o presente de natal! Então, passa pra cá essa sacola!

Vick abriu o presente, toda saltitante.

_Se for roupa vou ter que mandar alargar no quadril. Ou trocar por um número maior.

_Não é, não – disse Ivan.

Era um livro fotográfico, contando a história da moda desde o início do século XX até os dias atuais: as diferentes tendências, os grandes estilistas, as modelos mais famosas… Um livro muito patricinha, e bem a cara da Amanda. Nada a ver com a Vick.

_Interessante… – ela disse, depois de dar uma folheada no livro e rir da ideia certeira do Ivan de comprar aquilo para a Amanda.

_Se eu soubesse que teríamos essa substituição de última hora, teria comprado algo mais a sua cara – desculpou-se Ivan.

_Esquenta, não, garoto – disse Vick, fazendo um gesto para descartar o comentário. – Eu gostei. Essas fotos são lindas, e, vai ser legal conhecer a história por trás de… – Fez uma pausa. Parecia estar procurando uma palavra simpática. – Olha, não vou mentir, quero saber o que tinham na cabeça as pessoas que desenharam a moda dos anos setenta. E oitenta! Aquilo foi um horror!

Nem preciso dizer que o amigo grego também não funcionou. Ivan tinha comprado uma boneca da Fiona, que fez Vick cair na gargalhada.

_Você estava querendo apanhar da Amanda, né?! – caçoou ela, com a boneca na mão. – Amei! Vai fazer companhia para a minha Pedrita e para a galera do Scooby-Doo.

_Acho até que já dá para saber quem foi que você tirou – comentei. – Por que só está sobrando o Pedrão e a Cristiana, e ele não deve ter tirado ele mesmo…

_Oh, amor, você me tirou?! – disse Cristiana, toda dengosa para o namorado. – E não me falou nada…

_Amigo secreto tem que ser secreto – disse Pedrão, agarrando seu presente debaixo da árvore de natal.

_Não contou nada, e ainda trouxe dois presentes! – observei. – Isso, sim, é amor.

Cristiana abriu o presente dela, enquanto Pedrão abria o presente da Vick. O presente unissex que ela comprou era o DVD We Are The Champions Edição Especial, do Queen.

_Todo mundo gosta do Queen – explicou Vick, com ar de quem sabe das coisas, ao ver a expressão impressionada no rosto de Pedrão.

Também não deve ter sido fácil pensar num presente de grego que funcionasse para qualquer um. Pedrão franziu o cenho ao tirar um retângulo de plástico vermelho de dentro de um envelope de presente prateado com um enfeite de fita roxa.

_Isso é…? – ele começou a perguntar, antes de Vick tomar a coisa de sua mão e erguê-la impetuosamente no ar.

_Cartão vermelho! – bradou ela. – Caia fora daqui! – E deu de ombros ao devolver. – Era isso ou uma foto ampliada da Rita…

Pedrão bateu três vezes na madeira da nossa mesinha de centro.

_Quanta maldade nesse coração, Vick! Amigo grego é para ser engraçado; não é para torturar a pessoa.

Rita Ortega é assessora do Otávio, diretor do nosso grupo de teatro, e não é bem por ser feia que seria uma tortura ter uma foto dela em casa; essa mulher é uma urucubaca que alguém jogou na gente. Não só por ser chata e mal-humorada. A bicha é ruim, mesmo!

Agora, se fosse para escolher o momento mais surreal desse natal – depois de todas as coisas surreais que aconteceram ao longo do dia –, acho que eu escolheria o que aconteceu a seguir, depois que todos já tinham trocado os presentes de amigo secreto. Ainda havia um pacote embaixo da árvore de natal. E não era para ninguém que estivesse nos nossos planos receber em casa naquela noite.

Enquanto iniciávamos uma nova rodada de fofocas, Cristiana apanhou aquele presente e o entregou para a Dona Lourdes.

_Mas… – sibilou a síndica, ao mesmo tempo surpresa e emocionada. – Por que você me comprou um presente?

_Porque – disse Cristiana – eu sei que a senhora ia passar esse natal sozinha, e acho que ninguém deve ficar sem presente de natal. Mesmo a senhora não indo muito com a nossa cara, e nós duas brigando dia sim, outro também… Não queria deixar esse natal passar em branco. Até porque, de certo modo, a senhora faz parte da nossa família, né… Não sai do nosso andar… Tudo bem que a senhora é tipo aquela tia chata que não larga do nosso pé, ou aquela madrinha fofoqueira, mas, faz parte. E pode não acreditar, mas eu gosto da senhora. Aceita, é de coração!

Vi uma lágrima fugir dos olhos da Dona Lourdes. E, confesso que também tive vontade de chorar. A Dona Lourdes, como a Cristiana disse, era como uma tia chata ou uma madrinha fofoqueira, mas a verdade é que nós provavelmente sentiríamos falta se não tivéssemos aquela pessoa difícil para brigar todos os dias naquele prédio. E afinal, o natal é para isso mesmo, não é? É uma época do ano que existe para nos lembrar o que as pessoas têm de melhor, e para deixar todas as encrencas corriqueiras de lado, nos abraçarmos e descobrir o que temos em comum. Lembrar que somos uma família, mesmo se não tivermos o mesmo sangue.

Dona Lourdes ficou tão comovida com o gesto da Cristiana que até prometeu tentar pegar mais leve conosco daqui por diante. Contanto que a gente também colaborasse. Ou seja: vamos continuar recebendo advertências da síndica dia sim, dia não.

_Sempre que fizerem por merecer – confirmou ela, quando Cristiana verbalizou essa conclusão.

_Todo dia, então – disse Cristiana, desanimada. E arrematou com uma risadinha zombeteira.

Depois disso, Dona Lourdes serviu os cupcakes que tinha ido buscar enquanto começávamos o amigo secreto. Ela tinha preparado como sobremesa para a ceia antes ser convidada a se juntar a nós.

_Para começar 2017 alguns quilos mais gordas, meninas – disse Cristiana, nos propondo um brinde com os cupcakes.

_Com isso vocês não vão engordar nada – disse Dona Lourdes. – É light.

Quem diria! Se bem que, depois das toneladas de massas e sobremesas que já tínhamos comido naquela noite, não seria um cupcake que faria diferença nas dietas, realmente.

Daí em diante, a noite foi bem normal. Fizemos a contagem regressiva para a meia-noite espremidos na varanda, estouramos o champanhe da Vick, trocando abraços, e desejando feliz natal uns para os outros – e feliz aniversário para a Vick –, vendo os fogos de artifício explodindo no céu negro.

_Feliz natal! – gritamos de volta para um pessoal que estava no jardim do prédio.

_Feliz aniversário! – gritou Vick, olhando para o céu, iluminado por uma chuva de luzes coloridas. – É nóis, irmão!

_Tá falando com quem? – perguntou Vicente.

_Jesus!

E como já estava nos planos, avançamos todos nas orelhas da Vick, cantando Parabéns Pra Você. O pessoal que estava no jardim do prédio olhou para cima, gritando e acenando, provavelmente imaginando – com toda razão – que somos malucos.

Mas, se alguém perguntar, vamos dizer que a culpa é do champanhe. E das garrafas de vinho.

_Vem cá… – Cristiana sussurrou para mim, quando voltamos para dentro do apartamento, enquanto eu respondia uma mensagem de texto no celular. – Não vai mesmo me contar quem é o bofe misterioso que te mandou aquele ursinho hoje cedo?

_Ah, sim… – respondi. E me aproximei para sussurrar ao ouvido dela. – Depois do ano novo!

_Malvada!

Porque, afinal, estávamos mantendo nosso namoro nas sombras por um motivo. Mas logo, logo tudo viria a público.

Ah, e o meu pai recebeu algumas notificações do departamento de trânsito, alguns dias depois, de infrações cometidas pelo carro da funerária na véspera de natal. Ao que parece, o rabecão atravessou alguns faróis vermelhos, e o DETRAN tinha fotos hilárias registradas pelos semáforos no momento das infrações. Ironicamente, o motorista era uma rena!

Claro que, com o B.O. na mão, meu pai ficou livre das multas e dos pontos na carteira de habilitação. E ele até pode usar as fotos captadas pelas câmeras do DETRAN para uma campanha publicitária socioeducativa no natal do ano que vem, já que essa é uma época do ano em que ele costuma ter bastante serviço na funerária, porque o povo enche a cara, vai dirigir, e enche a loja dele de presunto. Então, fica a dica: se for dirigir, não beba! A menos que você queira dar uma voltinha no rabecão do Papai Noel.

Falando nisso, será que a habilitação do Rudolf estava em dia? Bem, acho que essa é uma outra história…

 

 

Conto publicado originalmente em três partes no blog Admirável Mundo Inventado.

Publicado também no Wattpad, nos sites Nyah Fanfiction, O Nerd Escritor (Parte 1, Parte 2 e Parte 3) e Escrita – Biblioteca Virtual de Escritores (Parte 1, Parte 2 e Parte 3).